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Em homenagem ao profeta da Marginal

Quinta, 06 de Março de 2008 423 visualizações Partilhar

um artigo de um colega Angolano, a residir no Canad... Humberto Costa* Conheci o Professor Joaquim da Rocha Pinto de Andrade, por volta de 1993, no ICRA.Na altura eu era mais um dos estudantes do curso mdio de Educadores Sociais. Desde o dia em que ele entrou por aquela porta dentro e se apresentou como professor da cadeira de Justia Social, tal como nos romances, nasceu entre ns uma empatia primeira vista. Aquele grupo de estudantes, de aproximadamente cinquenta homens e mulheres, viria a ser a ltima "fornada" de alunos que formalmente iria frequentar um curso completo daquele que dedicou mais de sessenta anos da sua vida ensinando, quer em vrios seminrios da igreja Catlica em Angola, quer construindo escolas para os midos nos bairros pobres de Luanda, quer mesmo leccionando no ICRA, onde por razes de sade cessou a sua carreira. Na altura, na fervescncia dos meus verdes anos tive a oportunidade de privar tardes e partes de noites com o professor Joaquim, como eu o tratava. Durante os encontros eu aproveitava para tirar esclarecimentos sobre anteriores lies e depois era normal falarmos sobre o nosso pas, Angola, que alis estava intimamente ligado sua vida desde os primeiros anos. Filho de uma professora primria, o Professor Joaquim diz ter completado a terceira classe em casa, tendo em seguida, na companhia do seu irmo mais novo, Mrio Pinto de Andrade, partido para Luanda onde veio a frequentar o seminrio catlico, que na altura s admitia brancos e mestios, ou ento filhos de famlias proeminentes, como os pais do actual Alexandre Cardeal do Nascimento, por exemplo. Ainda mido, o Professor Joaquim Pinto de Andrade contou-me que era obrigado pelo pai a ler muito e indirectamente participar nas reunies dos fundadores da Liga Nacional Africana. "s vezes estava eu a ler e de repente escutava a voz do meu pai oh, Joaquim traz mais uma cadeira!. Por vezes era para lhes levarmos gua ou um caf, de modo que tnhamos, eu e o meu irmo Mrio, de ficar muito atentos s chamadas do meu pai. E no acto de ficarmos atentos s chamadas escutvamos as suas reclamaes sobre as desigualdades em termos de oportunidades entre os nativos e os colonos. Importa dizer que eles, os mais velhos, defendiam que a competio e igualdade s seria possivel se do nosso lado tivssemos quadros com qualidade para poder ombrear com os do outro lado. Estas ideias repetiam-se diariamente. Foi neste ambiente que nos tornmos polticos, ainda midos. Segundo o Professor Joaquim foram, na verdade, as ideias dos fundadores da Liga Nacional Africana que vieram dar consistncia aos ideiais da emancipao e independncia. Os pais passaram a exigir melhor formao para os seus filhos, incluindo a possibilidade de poderem ir estudar na ento chamada Metrpole, para onde muitos partiram com o intuito de frequentar cursos universitrios. Entretanto, j mais tarde, nos seus 17 anos, ou um pouco antes, deu incio a uma carreira que abraou at aos 72 anos de idade. Professor de muitos alunos, incluindo do actual Arcebispo de Luanda, D. Damio Franklim, o Professor Joaquim deve ser lembrado, para alm de poltico e nacionalista, como um dos maiores e melhores professores e educadores que Angola teve, quer no sculo passado quer neste sculo. Nas vestes de padre, o Professor Joaquim ajudou a criar bibliotecas mveis e escolas clandestinas nos bairros perifricos de Luanda, estabelecendo ainda sucursais das mesmas no Catete e em Malange. Visitei-o na Marginal de Luanda onde vivia com a doutora Victria, ou simplesmente "T" como alis era tratada carinhosamente pelo marido, na altura os filhos encontravam-se em Portugal a estudar. Nas visitas, quer avisadas quer de surpresa, subi ao segundo andar do prdio da Nocal, bati a porta, cujo nmero j me escapa, vinha a doutora Victria abrir a porta, e dizia: "Joaquim so os meus enteados". Era assim que o Fernando de Almeida e eu ramos recebidos. Por vezes ia sozinho e em ambas ocasies encontrei um homem sereno, que da sua varanda, qual profeta abordava serenamente e com grande perspiccia o estado da Nao. Lembro com nostalgia as caminhadas que fizemos na calada da Marginal. Ouvi muitas vezes o Professor Joaquim dizer, "estude e aprenda Humberto. J tive muitos alunos nesta vida, sendo que alguns so um verdadeiro orgulho, outros nem por isso Quarquer actividade que desempenhar seja honesto consigo e com as pessoas, seja competente naquilo que faz, considere sempre o lado positivo das coisas e no te esqueas nunca que um futuro com qualidade, democracia e liberdade s ser possvel com educao de qualidade, o que no temos neste momento, lamentavelmente. Ajude sempre os mais fracos, os menos capazes. Invista sobretudo na formao". A ltima vez que vi o professor decorria o ms de Outubro do ano de 2001, em Lisboa, para onde o Professor Joaquim se mudara dois anos antes para escrever as suas memrias, mas que por razes de sade teve de interromper e dar incio a uma luta contra mais um derrame cerebral. Na altura eu estava a caminho de um exilio chamado Canad. Almomos os trs: a T, o Professor Joaquim e eu. Volt mos a falar de Angola, e a nossa conversa s foi enterrompida porque a minha madrasta insistiu que o meu pai tinha que ir descansar. Naquele dia o professor falou-me de uma Angola pela qual nutria amor verdadeiro e que para a qual queria regressar. Acho que j no tenho mais nada que fazer por aqui. Tenho que regressar para a minha terra e esperar que as coisas melhorem ou piorem. Depois de muitos anos de luta e trabalho em prol da minha terra seria triste morrer no estrangeiro. No te esqueas que a tua gerao tem muitas responsabilidades para com a nossa terra. Dizes que vais para o Canad, peo-te que no fiques por l. Angola a tua terra, e l que precisam de ti. Se nos voltarmos a ver se no olha" Quando um dia eu regressar a Luanda, j no poderei ir ao segundo andar do prdio da Nocal ao encontro do profeta da Marginal. Terei, pelo contrrio, de ir ao cemitrio do Alto das Cruzes ter uma conversa com o professor Joaquim e depois ir ao bairro Azul procura da doutora Victria. *Estudante do Curso Mdio de Educadores Sociais(1993-1997). Reside no Canad desde 2001 e est a especializar-se em Desenvolvimento Econmico e Social de Comunidades, na Algoma University College, terceiro ano, em Sault Ste, Marie. Humberto exerce a actividade de jornalista freelancer, e activista dos direitos humanos

Colunista:

Fernando Cruz Gomes

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