Olhando em redor 18
…eternamente à margem?
Concluída a obra física nos próximos dias, espera-se que, até final do corrente ano, se ofereça ao público um novo equipamento cultural da responsabilidade do Governo Regional dos Açores, desta feita na cidade da Ribeira Grande.
O conjunto de edificações que constituem o Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas possui diversificadas vertentes de utilização, que vão desde os espaços expositivos aos de criação (ateliers), passando pelas áreas destinadas a ações educativas, de fruição e de lazer, numa ambição claramente assumida de valorização do arquipélago como se de um verdadeiro epicentro cultural se tratasse.
A integração obrigatória do A-CAC no diversificado e complementar conjunto de equipamentos culturais regionais (museus e bibliotecas), em parcerias pontuais e/ou estratégicas com outros agentes municipais, associativos ou privados permitir-nos-á, através de uma verdadeira e necessária rede cultural, com intervenção transversal e a diferentes níveis (regional, nacional… e porque não global?), valorizar a nossa identidade como povo e a discutir sistematicamente o devir coletivo.
O futuro A-CAC corresponde ao sonhado e projetado num período em que acreditávamos que iríamos ser europeus e modernos, com direito a discutir a contemporaneidade.
Só que, como em todo o resto, fruto dos riscos do planeamento na governação, saiu prejudicado pela alteração incontornável das condições conjunturais que hoje conhecemos e para as quais a nossa dimensão regional (ou nacional) nada interfere ou condiciona.
Porém, a realidade incontornável é que a dimensão do sonho materializado não permite baixar agora os braços. O fator financeiro não pode ser o único a ter-se em conta e a comprometer os nossos projetos e ambições necessárias e proativas.
Se algo mudou, todos temos a obrigação de procurar e encontrar as soluções que viabilizem a concretização do idealizado para potenciar a construção consciente e coerente do futuro.
Por se entender que o estado, por si só, não pode (nem deve) assumir sozinho a definição do conceito de Cultura, mesmo que para tal recorra aos “agentes do regime”, o Instituto Açoriano de Cultura realizou em 2010, com os apoios das Direções Regionais da Cultura e da Juventude, o seminário “Estratégias criativas para revitalizar cidades”, que decorreu nas cidades da Praia da Vitória e da Ribeira Grande, constituído por um conjunto de comunicações de responsáveis por equipamentos culturais com relevante atividade, nomeadamente, Fundação de Serralves, Fábrica de Braço de Prata, Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea, Galeria Zé dos Bois, Câmara Municipal de Óbidos, entre outros, propondo-se aos participantes um exercício reflexivo em torno das potencialidades e dos riscos possíveis deste novo tipo de abordagem cultural.
Fruto de profícuas discussões e reflexões, considero que um modelo a analisar com alguma atenção, poderá envolver a junção de esforços (não só financeiros) do Governo Regional dos Açores, da autarquia da Ribeira Grande e de outras, empresas regionais ou nacionais (SATA, EDA, …), artistas, agentes culturais que estão no terreno, colecionadores, (e porque não ser otimista?) a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, a Fundação de Serralves, etc..
Torna-se urgente e essencial que toda a sociedade se envolva na discussão do modelo gestionário e do conceito daquilo que, para além de um conjunto de edifícios e de espaços promissores, e independentemente das vocações que comportam, só fará sentido e produzirá os efeitos sonhados se formos capazes de “construir” em seu torno um verdadeiro e claro destino, capaz de mobilizar os agentes culturais e toda a população potencialmente beneficiária, lançando a semente de uma forte paixão, que nos leve a participar na discussão do futuro através do questionamento sistemático da cultura contemporânea.
Ou será que também desta vez, condicionados pelo processo auto destrutivo que atravessamos, nos vamos abster de participar e, fruto da errónea leitura de povo “à beira mar plantado”, nos vamos manter à margem da obrigação de discutir e decidir o futuro?
Colunista: