Azores Digital

--> Hoje, dia 16 de Novembro de 2018

Protegendo os Mares dos Aores

Segunda, 25 de Junho de 2001 661 visualizações Partilhar Protegendo os Mares dos Aores

As reas marinhas protegidas dos Aores so poucas, funcionam mal e so insuficientes! Este poderia ser o comeo de uma enorme crtica forma como a proteco marinha nos Aores funciona. Na realidade, no bem assim. Felizmente ! Apesar de ser uma afirmao verdadeira, tem falta de uma componente de justia. que muito j foi feito, alguma coisa est a ser construda e h uma conscincia generalizada de que temos de ir mais longe.

O grande problema, como em muitas outras coisas nos Aores, que se comeou tarde. Apenas na dcada de 70 comearam as primeiras investidas no sentido de se protegerem reas e espcies marinhas nos Aores. A aco do Professor Lus Saldanha, e dos Aorianos que o acompanharam (como o Jorge Prista), foi determinante para que se iniciasse este processo. A linha de conservao ambiental foi prosseguida pelos investigadores do Departamento Oceanografia e Pescas da Universidade dos Aores (DOP/UA), com destaque para os Professores Jos vila Martins, Helen Rost Martins, Lus Monteiro e Ricardo Serro Santos, seu actual director. Em termos cronolgicos e oficiais, o primeiro passo foi a proteco do Monte da Guia e Caldeirinhas em 1980. Depois seguiram-se, de Oeste para Este, Caldeira de Santo Cristo, Ponta do Topo (S. Jorge), Ilhu de Vila Franca, Baa da Praia Formosa, Baa dos Anjos, Baa de S. Loureno e Baa da Maia.

Por estranho que parea, e em contraste aparente com a afirmao inicial, os Aores ocupam j a dianteira nacional da proteco marinha. A isto se deve a dedicao de tcnicos da Direco Regional do Ambiente e dos, j citados, investigadores do DOP/UA cojuntamente com as suas equipas. Este esforo foi recentemente encorajado pelos desafios colocados pela Directiva Habitats e pela consequente declarao dos Stios de Interesse Comunitrio (SICs). A precipitao da declarao dos SICs dos Aores teve como inconveniente alguma imaturidade nas opes tomadas, mas a enorme vantagem de iniciar a proteco em definitivo de algumas das mais importantes paisagens subaquticas.

Nos Aores declararam-se 17 SICs marinhos. Distribuem-se por todas as ilhas do Arquiplago, desde o Corvo a Santa Maria e ocupam algumas das zonas mais delicadas e interessantes das ilhas. Mas, como no h bela sem seno, as dimenses destas reas so muito pequenas, diria cirrgicas mesmo. Para alm disso, ilhas como So Miguel, a ttulo de exemplo, tm apenas uma rea designada (no caso a zona da Caloura). uma pena, tambm, no aproveitar o entusiasmo que os pescadores e outros interessados nos assuntos do mar tm demonstrado nas aces de sensibilizao realizadas pelo Projecto MAR (LIFE B4-3200/98/509 www.horta.uac.pt/projectos/life) para intensificar as medidas de proteco.

Sendo honesto, e em termos de preservao das pescas em valores comercialmente viveis, o Governo Regional (atravs da Direco Regional das Pescas) tem dado passos de gigante no sentido de maximizar as pescarias. Ao declarar uma zona de trs milhas de interdio pesca com palangre de fundo (vulgo trole) em volta de todas as ilhas, acabou por gerar uma das maiores reas protegidas da Europa. Os problemas sociais que esta medida pode gerar a curto prazo podem ser muito complicados, mas certo que a longo prazo poder haver um aumento muito razovel do pescado disponvel s outras pescarias menos lesivas do ambiente. uma medida que exigir alguma pacincia, para alm dos mecanismos de apoio social. necessrio entender que proteger o ambiente uma questo que interessa a todos e tambm por isso no devero ser apenas estes a pagar.

No contexto de tudo o que foi escrito atrs, qual o futuro das reas protegidas dos Aores? Parece-me que h trs factores essenciais: 1- fiscalizao; 2- gesto; e 3- aumento. Todos sabemos que a fiscalizao da utilizao do mar insuficiente em Portugal inteiro e os Aores no fogem a esta regra. necessrio criar meios e conscincias. A marinha, ou a polcia martima, tm de ter meios para poder dar segurana aos utilizadores marinhos e meios para os fiscalizarem. No estou a falar, obviamente, de submarinos nem fragatas, isso para outras guerras. Ns, nos Aores, precisamos de lanchas rpidas com capacidade para operar sob condies de meteorolgicas adversas, tm de estar equipadas com instrumentao de elevada qualidade ao nvel das comunicaes e posicionamento e, talvez mais importante, tero de ser operadas por pessoas conhecimento do mar, das artes e das estratgias. Isto indica que ser necessrio formao para as actuais foras fiscalizadoras e, quem sabe, a utilizao de outros homens do mar, como os pescadores, para fazer esta mesma fiscalizao. No se pense que uma ideia original, pelo contrrio, noutros locais j se fez e com enorme sucesso. Tambm h que acabar com a noo que feio fazer denncias. Atendendo a que complicado denunciar pessoas, porque o meio pequeno, absolutamente imperativo denunciar, quanto antes, as situaes. Por outro lado, os responsveis tm que estar conscientes de que o trabalho que est a ser realizado em termos de fiscalizao francamente insuficiente.

preciso gerir as reas que j esto designadas com estatutos de proteco. Designar foi fcil, agora h que estabelecer as regras que iro reger estas reas. H que definir o que se pode e o que no se pode fazer em cada uma delas. Eventualmente, ser necessrio definir tamanhos mnimos de captura para mais algumas espcies. necessrio estar atento, em termos cientficos, e actuar caso o decrscimo dos efectivos de alguma espcie a isso o obrigue. Para que isso seja possvel necessrio efectuar uma tarefa que em termos cientficos se designa por monitorizao. Ou seja, necessrio ir aos locais, mergulhar, contar as espcies e fazer censos da situao actual e modelar, posteriormente, qual a evoluo prevista. Muitas vezes os polticos no gostam de pensar nesta medida porque custa dinheiro, mas a cincia moderna e atenta, aquela que suporta as civilizaes avanadas, no vive sem monitorizao ambiental.
Na tentativa de definir qual a gesto adequada para cada rea, para alm do esforo realizado no mbito do Projecto MAR (mencionado atrs), h que referir um trabalho recentemente editado sobre a conservao da orla costeira das Lages do Pico e que foi coordenado pelo investigador do Departamento de Biologia da Universidade dos Aores Srgio Paulo vila.

Em paralelo com os dois factores mencionados anteriormente, h que pensar em aumentar as zonas designadas actualmente. bvio que as zonas designadas em So Miguel e na Terceira so francamente insuficientes. H que repensar, em conjunto com os pescadores, operadores tursticos, organizaes de defesa do ambiente, gestores e investigadores na melhor estratgia para defender o patrimnio natural marinho destas ilhas. Em relao s capacidades de carga para a observao de os cetceos, j h regulamentao adequada!

O ambiente marinho o nico que nos Aores continua muito parecido com o que os primeiros colonizadores conheceram. parte da perda dos lobos marinhos, outrora presentes na Ilha de Santa Maria, o resto do ambiente preserva ainda grandes riquezas ambientais. Mesmo assim, h sinais claros de explorao elevada de alguns ambientes e necessrio suster a ambio de alguns humanos antes que se torne tarde demais.

Texto: Frederico Cardigos
Foto: ImagDOP

Colunista:

Frederico Cardigos

Outros Artigos de Frederico Cardigos

Mais Artigos