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A sociedade falhou

Terça, 06 de Maio de 2014 777 visualizações Partilhar

Nunca tentei julgar a vida dos outros porque acho que é algo automático na mente de todos nós. Os humanos (penso que existem) são uns admiráveis fugitivos à essência da vida. Cada vez mais nota-se uma fuga à vida, ou seja, à nossa própria vida. Queremos viver vidas que não são as nossas porque somos ambiciosos e invejosos por natureza. Ser ambicioso não é um defeito, é sim uma virtude que caminha para o defeito. Quanto ao ser invejoso, podia ter escolhido outra palavra que levaria ao mesmo e não é um sinónimo perfeito, como por exemplo egoísta. O sinónimo perfeito seria, provavelmente, ciumento, mas queria caracterizar as pessoas com duas palavras injuriosas. Invejoso porque não vive a sua vida, querendo a todo o custo, arruinar outras pessoas e outras vidas. Egoísta porque só se lembra de si, negligenciando o valor aos outros.

Fazendo uso da minha fraca capacidade de análise, procurei julgar os outros. Os portugueses, neste caso específico. Obviamente integro-me em tudo o que vou criticar. Acho que a utilização da palavra crítica não se adequa. Talvez uma análise perspicaz que tantas pessoas já fizeram. Isso, uma análise perspicaz. Adoro o perspicaz porque dou a conhecer o meu lado pouco humilde, achando que estou a fazer algo espetacular e que no fim é tão absurdo.

São pequenas coisas da sociedade que me apercebi que existem e não fazem mal a ninguém. Coisas que fazem todo o sentido de não serem faladas, mas eu falo porque são evidências. Os portugueses normais que levam uma vida normal e que julgam viver num país dito normal o que fazem no seu dia-a-dia? Integro todas as idades e todas as classes sociais…

Todas as semanas, inclusive sábados e domingos, as televisões invadem as nossas casas com programas apresentados normalmente por dois apresentadores (que ganham um balúrdio), e durante todo o programa há um número que passa no rodapé da televisão. Muita gente liga para esse número, para os vários programas, com o intuito de ganharem um dinheirinho fácil. A sorte pertence apenas a uma pessoa. E o Euromilhões? Os portugueses pensam nesses jogos como a resolução financeira dos seus problemas e não lutam verdadeiramente contra as adversidades. Ganhar dinheiro sem trabalho é um golpe de sorte tentado pelos portugueses há anos. Todos os dias, os vícios de sempre! Três cafés por dia e um maço de cigarros… Sentados num café, a ler um jornal, a beber um cafezinho e olhando para a televisão ou para as pessoas ao lado, criticando tudo e todos.

As noites de sexta e de sábado representam o início do circo e quando chega à segunda a ressaca representa o fim do espetáculo. Há uma necessidade de esquecer os problemas através da bebida. Quando tenho uma conversa com alguém e essa pessoa sabe o nome de todas as bebidas brancas possíveis e imaginárias, vejo que sou ignorante por saber os países europeus e respetivas capitais. Sei apenas vinte ou trinta países, ele sabe imensas bebidas. Quanto aos livros, eu já li muito, mas vi que ler muito não é bem aceite pela sociedade. É preferível ter vários livros só para parecer bem aos olhos das pessoas. Quem lê por prazer merece todos os louros porque a maior parte das pessoas leem por obrigação.

Há quem cave a terra numa tentativa quase corrosiva de regressar a um passado distante. Um passado duro que não regressa. A terra odeia-nos pois fomos estúpidos para ela. Passados tantos anos regressamos à agricultura tradicional?

Outros dois aspetos que foram alvos da minha análise. Por um lado as crianças e o seu controlo obsessivo face aos novos pais, e por outro, a mentalidade mesquinha do português. Existem alguns paizinhos, estes mais novos, que fazem tudo pelas criancinhas. Escondem os problemas debaixo das almofadas, durante o sono. Escondem os obstáculos de uma vida dura que piora a cada dia, evitando lágrimas. Escondem dificuldades evidentes para que os miúdos não sofram. As crianças mandam nos pais. Os pais até deixam de ver televisão, para verem desenhos-animados, de modo a evitar birras e choros infindos. Quanto à mentalidade mesquinha do português, só tenho a mencionar que os portugueses sempre procuraram obter tudo pelo caminho mais fácil. Uma mentalidade do querer receber e não pagar. Uma mentalidade de querer negociar tudo, de paleio e de enganar os outros. Uma mentalidade de criticar os outros sem olhar para si.

Evito criticar-me sozinho. Estendo a crítica a mais pessoas porque julgo não ser o único errante no meu país. Eu tenho consciência que errei, mas será que toda a gente terá a capacidade de dizer: “eu errei!”? A sociedade falhou redondamente…

Colunista:

Emanuel Areias

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