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Fábio Ourique - o fadista e cantador de São Mateus

Quinta, 22 de Maio de 2014 814 visualizações Partilhar

Não tinha eu tanta certeza do que dizia quando falava deste operário das artes porque não o conhecia. Só tinha uma noção do que era enquanto pessoa. O conhecimento artístico estava lá todo, mas o lado humano era desconhecido para mim. Ouvia falar muito dele e até cheguei a conhecer os seus dotes, através dos dois ouvidos que Deus me deu. Mesmo assim, faltava-me sempre a parte humana e essa só conheci há pouco tempo, daí já ter capacidade e matéria de facto para escrever sobre aquele que considero ser o expoente máximo da humildade no meio em que se insere, bem como um dos fadistas e cantadores mais conceituados dos Açores. Uma vez esse rapaz (acho que me é legítimo, chamá-lo por rapaz) disse-me uma coisa que me marcou: “lá em casa a humildade foi me dada como alimento, ou comia ou ficava com fome. Sendo assim nunca soube o que era a fome, porque me alimentei da humildade.” Perante uma afirmação destas, os meus olhos entraram numa peleja contra lágrimas que vinham cá de dentro, do coração. Não é algo que se tenha coragem de dizer, mas este rapaz disse-me com toda a naturalidade. Esse juízo de facto é uma marca característica da família dele e notei isso quando estive na sua casa. A humildade e a simplicidade são o sustentáculo da família Ourique.  Claro que estou a falar de Fábio Ourique, um nome consagrado do fado, da cantoria e do Carnaval terceirense. O Fábio é um rapaz novíssimo e só me apercebi disso há pouquíssimo tempo. Um jovem de 22 anos que aparenta ser muito mais velho. Não pelo aspeto, mas também contribui. É a forma de pensar. Isso faz a diferença. O pensamento maduro demais para a idade que tem. Amadureceu cedo para uma vida repleta de adversidades e problemas. Nunca baixou os braços e isso é o reflexo da extraordinária força de vontade de um jovem que é muito daquilo que os seus pais fizeram dele, tal como os irmãos, está claro. Ele é um jovem indomável e impossível de parar. Pensa sempre em fazer algo de inovador. É esse pensamento progressista que faz dele, um verdadeiro cidadão ativo.

Eu nunca gostei de fado. Quer dizer, nunca tinha manifestado grande interesse. E foi este Fábio Ourique que me incentivou a ouvir fado e a ganhar gosto por esta arte. A culpa é dele. Mas ainda bem que isso aconteceu. Passei a ouvir, pelo Youtube, fados de outrora e alguns mais recentes. O mais importante é que passei a ouvir Fábio Ourique. Ganhei gosto pelo que ele canta e pela sua voz. Uma voz monumental. Considero-a rara e única. Ele é o maior responsável pelo meu apego ao fado. Nunca vi uma pessoa para amar tanto uma arte. Ele ama o fado como ninguém e nota-se isso pela forma como o canta. De olhos fechados, a sentir o que canta. Se não existisse o Fábio Ourique, o fado terceirense não era a mesma coisa. Os elogios ao Fábio estendem-se à cantoria. Mais um cantador que vai brilhando nos palcos dos Açores e pelos Estados Unidos da América e Canadá. Um cantador que no início teve alguma dificuldade em enquadrar-se no improviso popular pois tinha uma voz que teimava em puxar para o fado. Mas evoluiu de uma maneira incrível e hoje é um poeta consagrado. Para além de poeta e fadista, resplandece no Carnaval terceirense. É um dos exemplos a seguir pela juventude terceirense. Concentra em si demasiadas qualidades.

Num mundo em que se fala imenso de empreendedorismo, o Fábio Ourique reflete o paradigma de um verdadeiro empreendedor, disposto a abraçar vários projetos. Sou um pouco suspeito a falar nele porque para além de ser um grande apreciador dos seus atributos vocais e artísticos, considero-me um bom amigo do Fábio. Este rapaz merece que a vida o faça sorrir mais ainda. Ele dispõe-se a sorrir, mesmo nos momentos difíceis. Uma força de caráter invejável.

São precisos mais jovens como o Fábio Ourique, dispostos a darem muito de si em prol da sociedade. A cantoria e o fado necessitam de crescer ainda mais nos Açores. Acredito que a exportação do fado terceirense e do improviso popular para outras paragens, será feita por pessoas como ele.

Colunista:

Emanuel Areias

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