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Tiago Lima - o artista de São Mateus

Segunda, 26 de Maio de 2014 866 visualizações Partilhar

Nem sempre o antigo tem mais sucesso do que o novo. Nem sempre o antigo sabe mais do que o mais jovem. Nem sempre o novo aparenta ser quem é realmente, evidenciando ser já muito antigo e experiente no talento que possui e vai desenvolvendo. Fazer da experiência o elemento crucial para diferenciar os bons dos muito bons, às vezes não funciona. A experiência é relativa e relaciona-se, normalmente, com a idade. Pensar que este Tiago Lima é um daqueles guitarristas antigos, que sabem tocar de tudo a qualquer instante é absolutamente inútil. O que é inútil é eu pensar que ele é antigo, quando na realidade ele sabe “tocar de tudo a qualquer instante” e, surpreendentemente, é um rapaz quase da minha idade. A essência juvenil que ele transmite, como tocador e como simples pessoa que é permite-me deduzir que ele é um verdadeiro artista. Num meio artístico repleto de intitulados talentos que se julgam excelentes, muitos deles, nesta área específica a que me refiro, nem chegam aos calcanhares deste rapaz de São Mateus. Mas é a humildade que é a melhor qualidade do Tiago. O exibicionismo perde-se e a simplicidade é um todo representativo nele. A juventude ufana-se com o Tiago Lima. Este rapaz é um dos maiores exemplos de dedicação, coragem, força de vontade e talento que conheço. Talento que é evidente e imenso. Já existe e perdurará até aos finais dos seus dias. Eu percebo pouco de fado e saber falar do instrumento que o Tiago toca, pior ainda. Só me interesso por ele, pela pessoa que é e pelo que transmite ao tocar guitarra portuguesa como ninguém. Os sentimentos, as emoções e as sensações, provocadas pelos movimentos ascendentes e descendentes realizados pelos dedos quando mexem nas cordas, suavemente, tornam-me um ser incrédulo e boquiaberto, sem expressão. Ao assistir a uma atuação do Tiago Lima, revejo e penso que eu sou mesmo bruto e negligente para com a arte. Neste caso, para a minha arte, da escrita, está claro. O brilhantismo deste jovem é cada vez maior e a minha vontade em escrever sobre ele e sobre o seu dom foi crescendo e aumentando pela simples razão de ele ter feito da guitarra a sua namorada e ter protagonizado, com ela, cenas de amor-paixão dignas de serem exteriorizadas e faladas.

Pondo de parte o relato entusiástico, quando falo de talentos raros que se revelam sem darmos conta, parto para os aspetos factuais da existência física do Tiago Lima. Avanço para algumas notas biográficas que nos permitem inferir algumas conclusões interessantes acerca deste exímio tocador, que se exibe sem se exibir e brilha sem brilhar.

Nascido a 12 de Outubro de 1994, Tiago Lima começou cedo a despertar para o mundo no qual ele é hoje artista. Nasceu rodeado pelo fado. A sua casa cheirava a fado e quase todos os seus familiares eram escravos (conotação positiva) dessa arte tão portuguesa. Entrou neste mundo, muito por influência do seu avô, homem que respirava música. A certa altura, o seu primo e grande fadista terceirense, Fábio Ourique começou a cantar uns fadinhos na brincadeira, como dizem eles, e ele acompanhava-o com a guitarra portuguesa. Mas o gosto pela música não parou. Pesquisava na internet e ouvia outros guitarristas a tocar, e foi-se fazendo um extraordinário executador. Sem nunca perder o rumo, foi com a prática que ele se foi fortalecendo. O meio também gerou alguma influência neste jovem. São Mateus, terra de artistas, foi onde ele cresceu para o mundo. Tomara, com o mar a servir de inspiração…

Ele já me disse e eu fiquei ainda mais maravilhado. Este rapaz não esteve no conservatório! É tudo natural… talento puro, portanto. Com uma postura exemplar em palco, não olha, quando toca, o meio circundante. Prende a sua atenção no instrumento e tudo o resto perde importância. Não é exibicionista e é muito humilde em palco e fora dele. Um rapaz simpático, bem-educado, simples, mas muito rigoroso consigo próprio. Odeia falhar! Não sei se ele tem noção de que é muito bom naquilo que faz. Entre a cantoria e o fado, prefere o fado. E explica-me sem demora: “no fado há imensa diversidade, tanto nos fados como nos fadistas.” Os tocadores, diz ele, podem tocar o mesmo fado em diferentes tons e em distintos ritmos porque cada fadista tem a sua maneira de cantar. Os sentimentos manifestados pelo Tiago Lima quando toca a sua guitarra invadem o espetador e motivam uma panóplia de emoções. Ele quando se junta à guitarra, formam um só. No que diz respeito aos sonhos, o jovem de São Mateus quer tocar em Portugal Continental, porque é lá que se dará a conhecer verdadeiramente. “A relação que se estabelece com o tocador do lado, permite que entendamos e apreendamos coisas novas”, diz ele. Sem um bom acompanhante, a guitarra do Tiago, apesar de continuar a fazer-se notar, perde um pouco do valor.

Perante tudo o que foi dito, espero que o Tiago Lima seja mais do que um talento e que vingue completamente com a sua guitarra portuguesa, sempre a seu lado. Para onde quer que vá, ele brilhará sempre.

Colunista:

Emanuel Areias

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