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Ser terceirense é fixe (III)

Sexta, 30 de Maio de 2014 787 visualizações Partilhar

Como não há duas sem três, “Ser terceirense é fixe” outra vez! Descrever as beldades naturais da minha ilha, as fantásticas cidades e freguesias, o mundo rural e o oceano resplandecente, foi o que tentei fazer, empreendendo a caracterização mais sublime do espaço físico e do que é ser um terceirense. A influência de um meio sobre um indivíduo é mais do que evidente, no que à Terceira diz respeito. Aquele que nasce terceirense, até pode viver longe da ilha, mas sempre com uma lágrima no canto do olho, sempre com uma saudade imensa e, principalmente, com o desejo de regressar ao lugar onde nasceu. A ligação humana à Terceira é divinal. Os terceirenses defendem a sua ilha acerrimamente, combatendo a crítica às festividades tradicionais ou o domínio de outras ilhas…

Carnaval. A autenticidade da interpretação das personagens, o viver intensamente os dias de Carnaval, o toque da música amalgamado ao sorriso ou choro de uma criança, a sociedade repleta, o povo desejoso de ouvir versos profundos e saudosos, a espera pelo assunto, que normalmente aprofunda um tema social atual, os debates populares após as atuações…. Isto é viver a tradição, é habitar na Terceira! Mais uma bifana a sair, mais uma dança a chegar. O salão está pelas costuras… O ar puro na sala é praticamente inexistente, mas ninguém sente-se demasiado aflito. Uma senhora senta-se numa cadeira, desde do meio-dia até de madrugada, e nem se levanta para não perder o lugar. Diz que quer ver: a dança dos “rapazes da Agualva”, o “bailinho do Jaiminho” ou o “bailinho do Laranjeira”…. “Não posso perder!”. Os mascarados invadem o salão e metem medo às crianças. A chegada de uma dança de espada faz o povo arredar pé. Lá vem o comentário do costume: “Para tristezas basta a vida”. Mas não façam assim, deviam assistir, porque as danças de espada só dão mais brilho ao Carnaval. O que seria da comédia sem a tragédia?

Outra tradição, de que eu sou particular apreciador, é a cantoria. A cantoria renasceu da morte, isso é uma evidência. Cantadores e uma cantadeira iluminam as festas de Verão, festivais, cantorias de ocasião… É absolutamente fantástico o dom daquela gente. Apesar de existirem os cantadores de fora (alguns muito bons, e de que eu sou admirador), o berço da cantoria é na Terceira. Uma noite de cantoria é sinónimo de alegria e conhecimento. Abordam-se temas culturais interessantíssimos ou segue-se a via da brincadeira. É opcional e a escolha pertence aos magníficos cantadores. Mais um despique, mais umas gargalhadas… ou umas lágrimas se o tema for muito forte do ponto de vista emocional. José Eliseu e Bruno Oliveira, Maria Clara e Fábio Ourique, José Esteves e José Fernando, estes são os desafios da noite…. As violas começam a tocar e os versos, deleitosos e graciosos, são proferidos de uma forma perfeita.

Duas tradições excecionais que elevam a cultura açoriana, particularmente a terceirense, ao topo do mundo. Ser terceirense é abraçar a cultura…

Colunista:

Emanuel Areias

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