Cavalos de Tróia
Desde a antiguidade clássica que se vêm travando batalhas a partir do interior, mantendo-se esta estratégia atual e eficaz nos seus resultados.
Felizmente que existem criativos que nos provam que as ideias podem substituir as armas e que certas ações “artivistas” podem contribuir para a sensibilização da nossa sociedade perante aspetos que não podem, nem devem, ser ignorados.
Na passada semana (4 de julho), e no decurso da performance artística que inauguraria a instalação multimédia de Rui Mourão, “Os nossos sonhos não cabem nas vossas urnas”, no Museu do Chiado (Lisboa), desencadeou-se uma ação de protesto envolvendo cerca de quatro dezenas de cidadãos anónimos, que levou à ocupação temporária do MNAC , durante a qual foram tecidas duras críticas ao atual modelo de governação cultural, reivindicando-se com convicção justificada algumas medidas concretas em prole da melhoria de eficácia da rede nacional de museus, na divulgação das obras e dos seus criadores.
Claro que este tipo de ações começa por criar “amargos de boca” aos agentes do sistema que mais próximos se posicionam face aos criadores. Que neste caso foi personificado pelo próprio diretor do MNAC.
Porém, a eficácia da autoassumida “ocupação artivista” dependerá de nós e das conclusões e réplicas que daí poderão advir. Cabendo-nos o papel de, em sociedade, aferirmos da razoabilidade dos argumentos que nos foram impostos, e em caso de veracidade comprovada, agirmos consentaneamente no sentido de influenciar quem nos governa no colmatar de lacunas e no corrigir de erros estratégicos crassos.
Um outro caso, e comprovando que os criadores artísticos sempre se mostraram na vanguarda do pensamento social e estratégico, culminou com o encerramento, esta semana (7 de julho), mais um caso mediático que, contrariando o bom senso, se desenrolou nos tribunais algarvios, confrontando o conservadorismo factual com a liberdade de expressão artística. Nesse “braço de ferro” de parca lucidez inocentou-se finalmente a obra “Portugal na forca” e o seu criador (Elsio Menau, 30 anos, aluno finalista da licenciatura de Artes Visuais na Universidade do Algarve), do alegado crime de “ultraje aos símbolos nacionais”…
A obra escultórica, constituída por uma bandeira nacional suspensa de uma forca, assumia ideologicamente o apelo à análise crítica do estado da nação e foi concebida e materializada no contexto do final do curso atrás referido.
Também desta se provocou um debate geral e mediático em torno da atualidade nacional, através de um ato de expressão artística, irreverente mas aglutinador de largos segmentos culturais e artísticos.
Com este tipo de atitudes provocatórias e portadoras de alguns riscos, vem mais uma vez a comunidade artística e criativa pôr o “dedo nas feridas” do nosso quotidiano, combatendo com frontalidade a “cultura do medo” que impera no dia-a-dia da generalidade dos portugueses que, para não afrontar os poderes instalados (que na maioria dos casos são geridos por pessoas por nós eleitas…), nem arriscar a perda de aspetos (direitos?) adquiridos, se demite do direito de dizer não e reivindicar a escolha de outros caminhos.
Sabendo todos nós que o respeito pela diversidade de opinião é propiciador de uma sociedade mais livre, coesa e consciente, talvez seja tempo de cada um de nós assumir as suas responsabilidades na defesa do nosso futuro coletivo e do país que devemos honrar.
Não sendo o medo um elemento novo da vida em sociedade (veja-se a exposição coletiva “Dar rosto ao medo” presentemente disponível na Casa das Histórias Paula Rego [Cascais], com obras de Paula Rego, Victor Willing, Bartolomeu Cid dos Santos e Eduardo Batarda), é chegada a hora de estarmos todos presentes!
Colunista: