Três faces da mesma moeda
Num mundo em permanente convulsão, e com a proximidade que a atual comunicação social nos proporciona, somos surpreendidos negativamente no nosso quotidiano pleno de voyeurismo indolor e inconsequente, por realidades dolorosas e aparentemente irresolúveis que, nos deveriam alertar para os riscos a eles associados e às motivações que realmente os fundamentam.
Os casos que abordarei em seguida constituem por si só exemplos de situações onde interesses setoriais acabam por prejudicar gravemente a generalidade das populações que, em alguns casos, se arrastam ao longo de várias gerações.
Se os jogos de poder político-financeiro sempre foram uma constante da nossa História, a verdade é que, os riscos atuais, reforçados pela globalização do capital e pela subjugação dos governos ao interesse desse poder indefinido mas sempre presente, são cada vez mais perigosos por criarem verdadeiros focos de contágio belicista numa aldeia global onde muitos de nós apenas tentam sobreviver.
Conflito israelo-palestiniano
Desencadeado após a queda do império Otomano, e com especial incidência desde a criação unilateral do estado de Israel (1948), que os conflitos no Médio Oriente se arrastam, não por motivos religiosos (como se pretende fazer acreditar), mas esencialmente por uma questão de recursos hídricos, uma vez que as maiores reservas de àgua da região se encontram localizadas sob os famigerados Montes Golan.
O estabelecimento de um lar judeu na Palestina, como compensação do sofrimento vivido pelos judeus durante a Segunda Guerra Mundial, quando do Holocausto, foi a solução encontrada, em 1947, pela então recém-fundada ONU, sem que préviamente fossem ouvidos os povos árabes da região, provocando um novo foco de tensões que hoje ainda subsiste.
Ao longo de já seis décadas que os israelitas, contando com um apoio político financeiro dos paises ocidentais (EUA, Reino Unido e demais aliados da 2ª Guerra Mundial) se impõem na região, travando um verdadeiro confronto de “Sansão contra Golias”, onde os palestinianos recorrem às pedras (Intifada) para lutar contra um potencial bélico, muitas vezes, de última geração.
Os desiquilibrios políticos resultantes da redução dos fluxos monetários que ao longo do passado recente vêm financiando ambas as partes, provocam sistemáticamente um agravamento das tensões, arrastando os dois países para um confronto fronteiriço que nos últimos dias já provocou a morte a centenas de civis palestinianos.
Sabendo-se que em guerra existirão sempre os chamados “danos colaterais”, a verdade é que neste caso estão a ser bombardeadas áreas residenciais sem qualquer infraestrutura militar que justifique o “erro”, matando-se civis (homens, mulheres e crianças) como estratégia de isolamento e desmoralização das posições do Hamas.
Ucrãnia – país charneira entre blocos
Com o fim da Gerra Fria e a dissolução do antiga URSS temos vindo a assitir a um enfraquecimento evidente da Rússia e do seu poder financeiro e geo-estratégico no globo.
O acentuar da crise financeira mundial vem empurrando os decisores do Kremlin para estratégias de saudosismo imperialista que, pacificando internamente os seus eleitores com o recurso a sonhos ficcionados de reconstrução do poderio anterior à Glasnost, contrapõem uma ascendência arrogante dos EUA (e dos seus parceiros da EU) na condução dos destinos do planeta.
Nesta triste história, a Ucrãnia acaba por se tornar num país localizado no sítio errado, na época errada, com a agravante de ter uma série de insuficiências energéticas e financeiras que a tornam sempre dependente de interesses externos e numa verdadeira “terra de ninguém”, onde os direitos dos seus habitantes se diluem face aos interesses desse território fronteira entre o ocidente (UE) e a região do Báltico (Rússia).
Face a um “namoro interesseiro” da União Europeia, e a uma hipotética integração na NATO, a Rússia recorrendo a estratégias separatistas e fraticidas instigou uma situação de verdadeira guerra civil, com clara ingerência contra os poderes instituídos, na forma de apoio direto aos grupos separatistas pró-russos, que culminou no caso mediático o abate do avião comercial da Air Malásia, que nos vem mantendo colados aos televisores.
Instantaneamente se levantaram multiplas vozes, com discursos contraditórios e sempre algo falaciosos que, tentando justificar a “realidade” ficionada, com argumentos que cruzados com outros, induzem à conclusão que ninguém se entende e que a verdade simplesmente não existe.
Configura-se neste caso mais um país “à venda, enquanto se aguarda a clarificação e a origem da melhor oferta (se a Rússia com o gás natural e demais prebendas ou a EU/EUA com as promessas de integração no eldorado ocidental), se arrastará um conflito que atingirá diretamente as populações civis (residentes e em trânsito), destruindo a sua identidade como povo, os seus sonhos e a sua realidade social.
Timor Leste
Sob a égide da visita de altos dignitários portugueses à ex-colónia de Timor, veio a lume uma preocupação que tende a materializar-se e que poderá levar ao reacender de conflitos tribais e de lutas de poder que, não sendo travados atempadamente poderão levar ao fim deste jovem país remoto, onde ainda se fala (pouco) o português.
Diz-se agora que o decréscimo das receitas provenientes do petróleo e do gás natural, que até aqui foi direcionado para comprar vontades e manutenção de uma paz podre no território timorense, associado a um provável afastamento de Xanana Gusmão da gestão dos destinos nacionais, poderá causar um vazio de poder e uma nova situação de guerra civil.
Depois da miragem que foi globalmente difundida, segundo a qual se garantia a autossuficiência financeira deste pequeno país através das reservas petrolíferas existentes nas suas águas territoriais, acordam-nos agora bruscamente informando que o fundo do petróleo está a acabar e que os proventos da efémera exploração não foram aplicados na economia e sim nos barões do poder e nos seus apaniguados.
Mais uma vez somos forçados a pensar que: "A paz é um assunto demasiado importante para ser entregue apenas aos políticos."
Longe vão os tempos em que as resoluções das pendencias políticas entre povos se resolviam com o confronto físico dos seus líderes. Porém, não é admissível que sejam os inocentes a pagar com os seus bens e a sua vida a ambição do poder.
Estarão os governantes dos G8, BRIC, G20 e demais lobies de poder mundial conscientes do caldeirão de tensões atualmente existentes no globo terrestre?
Nas condicionantes que estes “senhores da guerra” valorizam e veneram, estarão incluidos os povos que por cá habitam?
Em período de resseção e de escassez monetária global, até quanto se manterão simplesmente regionais os conflitos que tendem a generalizar-se, recriando uma nova abertura da “Caixa de Pandora”?
Colunista: