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Zelar ou postergar?

Segunda, 08 de Setembro de 2014 822 visualizações Partilhar

No rescaldo do IV Encontro Técnico da Rede de Proteção e Valorização dos Centros Históricos, promovido pela União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA) e acolhido pelo município angrense, proponho-vos, em termos de revisitação, a análise da nossa responsabilidade coletiva e indeclinável no estudo, preservação, manutenção e (re)utilização  do património edificado, como único garante de futuro para o que chegou até aos dias de hoje.

Terminado, desde meados de 2012, o inventário do património imóvel dos Açores, encontram-se reunidas todas as condições para que o aprofundado trabalho desenvolvido seja valorizado pela reanálise da lista dos imóveis da região, com vista a uma melhor consciencialização dos valores e dos riscos que estes acarretam.

Entre os imóveis estudados encontra-se a Fortaleza de S. João Baptista (também referida como Castelo de São João Baptista, Castelo de São Filipe, Fortaleza de São Filipe ou simplesmente Fortaleza do Monte Brasil), localizada em posição dominante sobre o istmo da península do Monte Brasil, no lado ocidental da baía de Angra (Imóvel de Interesse Público, Decreto nº 32 973, DG, 1.ª série, n.º 175, de 18 agosto 1943 / Incluído na Zona Central da Cidade de Angra do Heroísmo).

Iniciada a sua construção durante a dinastia Filipina (1580-1640), sob projeto do italiano Tiburcio Sapnochi (1590), chega aos nossos dias como uma das maiores fortalezas militares atlânticas, que tendo sido edificada com o intuito de proteger os navios vindos das Índias e das Américas, manteve a sua importância militar, estratégica e política até 1939 (ano em que o Comando Militar dos Açores foi transferido para S. Miguel).

Como muitos saberemos, a Fortaleza de S. João Baptista é hoje ocupada/utilizada pelo Regimento de Guarnição nº1, dependendo diretamente do Ministério da Defesa, do Governo da República.

No seu interior existe (ainda…) a igreja de S. João Baptista que foi a primeira igreja a ser construída em Portugal depois da Restauração (1645), mandada erigir pelo rei D. João IV logo após a rendição das tropas espanholas.

…e é sobre esta igreja que vos gostaria de chamar à atenção!

Como poderão constatar, e embora tenha sido reconstruída com alguma profundidade após o sismo de 1980, verifica-se que esta enferma atualmente de graves fragilidades estruturais que, nada se fazendo rapidamente, poderão levar à sua ruína.

Fruto da erosão salina, e de eventuais negligências na sua “recuperação/reconstrução”, a verdade é que a degradação dos elementos pétreos exteriores já não pode ser ignorada, tendo afetado variados elementos estruturais e/ou decorativos (cunhais, lintéis, etc.), obrigando a que os militares (e bem) já venham condicionando a circulação nas sua envolvente, face ao risco real de derrocada eminente.

É nestes casos, em que o interesse coletivo diverge das estratégias político-partidárias ou das agendas setoriais do poder instituído, que nos devemos unir em torno do que é realmente importante, ultrapassando os meandros kafkianos das responsabilidades e exigir a preservação do nosso passado coletivo.

Perante um conjunto edificado de inegável importância arquitetónica e histórica, que claramente extravasa a dimensão simplesmente nacional, e que justificadamente deveria forçar a análise de uma possível reclassificação como monumento nacional, não poderemos permitir que se mantenham as condições de degradação de uma das suas principais componentes.

Sendo verdade que “não há futuro sem memória”, desafio-vos a defender a Igreja de S. João Baptista.

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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