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O afrontamento dos dogmas

Quinta, 18 de Setembro de 2014 762 visualizações Partilhar

Muito se tem falado e escrito sobre uma simples dança na igreja de Nossa Senhora dia Guia, conhecida vulgarmente como a igreja do museu.

Depois de uma primeira fase de reação silenciosa, entendeu o Diário Insular provocar a discussão, transformando aquilo que era mais uma ação de índole cultural do MAH, num foco de discussão e de discórdia do burgo angrense.

Poder-se-ia justificar o evento pelas condições únicas do piso, como integrada num conjunto de atividades ligadas à dança (que vêm sendo desenvolvidas há vários meses) ou como uma estratégia essencialmente provocatória, para chamar à atenção do papel que um museu regional deve desempenhar no meio social onde se insere.

Independentemente das intenções iniciais, a verdade é que foi construída na opinião pública a ideia de que se tratava de pura e simples provocação gratuita e ofensiva, num meio alegadamente católico e conservador…

Pois vejamos…

Em toda a história do cristianismo se recorreu à música como elemento aglutinador das massas, onde pelo canto e pela dança se propiciava sentimentos de partilha e união em torno de algo muito concreto: os princípios sociais realmente importantes, que se encontram plasmados nos 10 mandamentos.

Ao que sabemos, e eu fui um dos que não assisti ao dito, nenhum deles foi contrariado ou profanado!

Mal iria a fé católica apostólica romana se uma simples dança num dos seus/nossos templos colocasse em risco algo de essencial ou abalasse com os alicerces fundamentais da religião que justificou a sua construção e preservação.

A verdade é que esta ação atingiu o objetivo desejado: PROVOCOU (a reflexão individual).

Como efeito colateral levou os sectores mais conservadores da nossa sociedade, não procurando entender os objetivos subjacentes, a optar pela justificação da ofensa gratuita.

Recordo que há alguns meses atrás, e num cenário semelhante (uma igreja ortodoxa), um grupo musical russo (Pussy Riot / grupo de punk rock feminista) gravou um vídeo clip contendo uma performance extemporânea, que poderemos classificar como de intervenção política, contestando o modelo de governação liderado por Vladimir Putin, da qual resultou a prisão prolongada de todas as intervenientes.

Desta feita, toda a comunicação social ocidental entendeu o caso como uma perseguição política atentatória dos direitos humanos e das liberdades individuais, chegando ao ponto de figuras públicas da esfera política terem vindo a terreiro contestar a abusiva medida de coação tomada.

Sejamos claros!

Uma ação provocatória (porque não no bom sentido?) como esta foi, tem de ser entendida na sequência do raciocínio que cada um de nós tem de efetuar.

Para além de uma simples dança numa igreja que, estando ainda aberta ao culto e utilizada esporadicamente pela ordem franciscana, é parte integrante de um museu (detentor de uma missão fulcral na construção e preservação do nosso passado coletivo e ferramenta identitária local, regional e nacional) o que é que realmente incomodou? O umbigo da bailarina?

…numa sociedade que diariamente mata, explora, trafica, violenta… numa aparente e prolongada impunidade????

Tudo isto me parece parco de conteúdo, vindo do seio de uma sociedade onde os princípios (sejam eles considerados basilares de uma religião ou da sociedade por si só) se quedam mudos e indefensáveis pela maioria, sendo a liberdade individual considerada como uma perda menor.

Também eu fui alvo da provocação, distinguindo os verdadeiros objetivos do ocorrido das vendettas pessoais ou de grupo e passíveis de instrumentalização, levando-me a concluir que a evolução não pode ficar dependente de dogmas, principalmente quando estes são utilizados fora de contexto.

Decididamente não será a cultura (artificial) do medo e do obscurantismo, face a forças sinistras e pelo mal, que levará a nossa sociedade a um futuro melhor.

 

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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