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Bruno Oliveira, o poeta jorgense

Quinta, 02 de Outubro de 2014 1290 visualizações Partilhar

Falamos muito em cantadores das cantigas ao desafio. É um hábito comum aos apreciadores do improviso popular utilizar o termo cantador, colocando de parte, as palavras poeta ou trovador. E até é bem pensado, não utilizar em vão, oralmente, estas palavras. Eu tenho de ter cuidado na escrita quando tento transmitir mensagens, ideias ou opiniões acerca desta arte, e não posso chamar poeta a quem não é. Uns são simples cantadores, outros são poetas. No passado a cantoria conheceu uma vastidão de poetas de renome. Pessoas que usavam a boca com um autêntico desembaraço, dando, a nós, ouvintes, poesia no seu estado puro. As quadras tinham ligação. O que era dito partia de uma ideia antecipadamente pensada. Não havia cortes intempestivos no meio dos versos. E pensava-se mais na ideia do que na rima. A rima era uma consequência imediata do dom.

Eu tenho dificuldade em encontrar poetas no improviso de hoje. Mas saliento, e este texto é acerca dele, o Bruno Oliveira. O meu objeto de estudo centrou-se nesta pessoa. Decidi que assim seria. Para haver um poeta bom é preciso um poeta excelente. A excelência do improviso centra-se na pessoa de José Eliseu. Figura sem paralelo nesta arte. Guardo grande respeito por ele e terei, no futuro, todo o gosto em cingir-me à sua personalidade enquanto pessoa e artista multifacetado. De certo modo, acho este cantador jorgense, um produto raro da poesia popular. É dos tais que chega e marca a diferença. Tentando fazer um retrocesso histórico e uma comparação, associo este Bruno ao responsável de uma revolução, de um corte com um passado cansado e desmotivador. Não o posso dissociar de um outro poeta terceirense, jovem e com uma evolução interessantíssima, de seu nome Fábio Ourique.

Mas é o Bruno Oliveira que marca uma nova fase da cantoria. Quer gostem quer não, há que lhe dar o mérito. No início, o seu nome ao ser pronunciado pelo anunciador da cantoria, as ovações eram extraordinariamente incríveis. De facto, nunca ninguém tinha despertado o entusiasmo popular como este cantador de São Jorge conseguiu. E saliento umas características muito próprias que ele possui: inicialmente, quase que “bailava” em palco, com gestos e movimentos engraçados; uma voz que se ouve longe e faz estremecer as colunas; uma postura vigorosa e um semblante sério; uns tiques desconcertantes; e mostra, uma defesa acérrima de si e da sua dignidade, ou seja, que ninguém lhe toque, porque o seu forte é o repentismo à pressão.

Não me cabe a mim, opinar sobre desafios e relações entre cantadores, mas é certo que o seu aparecimento nos palcos terceirenses, motivou uma certa inquietação em algumas pessoas. A falta de subtileza e o desrespeito pelo chavão, “cantigas levam o vento”, teve impacto no seio da cantoria por culpa de gente vaidosa e orgulhosa demais. Na minha opinião, este cantador não é ofensivo o suficiente para intimidar individualidades. E já mostrou não ser um cantador apenas de brincadeiras. Canta ao sério e bem.

Por isso, posso chamá-lo poeta. É o poeta da ironia fina. Dos eufemismos requintados e das comparações e associações surpreendentes. É um cantador/poeta finíssimo no trato e na atitude.

Deixo-vos com algumas quadras e sextilhas da sua autoria.

Desde cedo, no primeiro dia em que cantou, mostrou uma perspicácia louvável e disse:

Não canto nem arremato

Mas nada disso estranho

Porque um rato para ser rato

Primeiro tem de ser morganho

 

Em despique com o cantador António Mota:

Eu sou quadra, tu és sota

Tu és pão, eu sou bolor

És moeda, eu sou nota

Sou aluno, és professor

Sou bicicleta, tu és mota

Tu tens sempre mais valor

 

E termino, com as últimas três quadras do poema acerca do Dia do Idoso:

 

Pois muito novo não vai
Ser velhinho com doçura
Porque muita fruta cai
Da árvore, sem estar madura

Mesmo de idade avançada
Há uma coisa curiosa
Uma rosa desfolhada
Nunca deixa de ser rosa

No fim quero dar conselhos
A quem a velhice reprova
Pois é com retalhos velhos
Que se faz uma manta nova

Colunista:

Emanuel Areias

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