No dia em que esboço esta reflexão escrita comemora-se o Dia Mundial da Poupança.
Esta efeméride, que foi instituída durante o primeiro Congresso Internacional de Economia, que decorreu em Milão no ano de 1924, teve como objectivo “sensibilizar os consumidores para a necessidade de disciplinar gastos e de amealhar alguma liquidez, de forma a evitar situações de sobre endividamento”.
O problema português e, de algum modo, global é que actualmente não há como poupar, pelo simples facto da retribuição normal do trabalho não ser suficiente para cobrir as despesas obrigatórias das famílias.
Com o “acordar forçado” a que generalizadamente fomos obrigados pelo crash financeiro de 2008, deparamo-nos com uma imposição anticonstitucional ficcionada, materializada à custa de medidas legais avulsas e de duvidosa temporariedade, que reduziram as contrapartidas remuneratórias dos trabalhadores no ativo, cortaram nas reformas de quem trabalhou toda a vida (para garantir o seu futuro no ocaso da vida) e, mais grave do que tudo, vem hostilizando o trabalho de um modo, no mínimo, irresponsável.
Numa sociedade que, fruto de estratégias castradoras e massificantes, vive condicionada e formatada para “sonhar” com subsídios e só demonstrar alguma iniciativa em função de alegados incentivos regionais, nacionais e/ou comunitários, teimamos sistematicamente em negligenciar a única fonte geradora de riqueza que é o trabalho.
O “roubo” da iniciativa individual e privada, levado a cabo pela dependência tentacular dos financiamentos “dos outros”, o desemprego que (mesmo com o decréscimo percentual recentemente conhecido) ainda ronda os 13,6% da população ativa e a ânsia persecutória de cobrança de impostos em setores que, sem retorno fiscal significativo, sempre foram o garante complementar de algum conforto financeiro para as famílias, fazem com que estas fiquem inibidas de poupar e, mais grave do que isso, se encontrem há vários anos a consumir as parcas poupanças que (hipoteticamente) tinham acumulado.
Se é opinião generalizada e “politicamente correta” dizer-se que o envelhecimento do país, as competências e as qualificações da população e a crónica falta de capital das empresas constituem o principal desafio da actualidade portuguesa, não poderá descartar-se a obrigação de, dignificando o trabalho (e o direito de através deste se melhorar o futuro de cada um de nós), criar condições político-financeiras para que cada um de nós, pela via do trabalho, possa contribuir na geração de riqueza e na valorização/construção do futuro.
Muito se tem criticado a banca nacional e internacional pelo facto desta se vir recusando a financiar a economia portuguesa, neste período de elevados riscos de insolvências e falências, mas a verdade é que (mesmo sabendo que foi essa mesma banca, pela sua ganância que nos arrastou para este abismo) dependerá sempre (e somente) de nós a sobrevivência da nossa família e do nosso país.
Chega de nos querermos enganar, interiorizando que alguma coisa ou alguém fará alguma coisa em nosso benefício. Tal não acontecerá!
Resta-nos exigir a devolução do direito à iniciativa individual e a reposição da legislação que, cumprindo a Constituição da República Portuguesa e demais legislação anteriormente instituída, deixe de coartar a livre iniciativa e o “suado” bem-estar das famílias.
Tudo será diferente se o lema passar a ser trabalho, em substituição da fixação autista do imposto (como garante único e obrigatório da máquina estatal)!
Colunista: