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Desassossegos

Segunda, 03 de Novembro de 2014 962 visualizações Partilhar

A culpa de voltar à escrita, depois de estar a dormir, é a irritação que as coisas irritantes me fazem sentir. Melhor dizendo, enfureci de uma tal maneira, enquanto passava pelos sonos primários que tive de vir expressar a minha profunda desilusão com o mundo. Com as coisas do mundo que me irritam, mais propriamente. Ninguém se sente bem com as artimanhas do destino. Às vezes ele age para nos lixar o juízo. Ele é tão intermitente, e resolve armadilhar as inteligências das pessoas, de modo a atrair o lado aberrante de cada um de nós. E consegue sempre. Incentiva a fúria e a impaciência em relação a determinadas coisas.

Irrito-me com quem amo. Então, por que razão sou rejeitado ao amor? Sou mau demais? Ou serei bom em demasia? Não percebo, sinceramente, a ação de uma pessoa que afirma convictamente algo, e não atua em nome dessa convicção. Irrito-me com as torradas e com o café. Gosto de torradas quentes, para a manteiga derreter e de um café minimamente quentinho. A porcaria é que me distraio facilmente e quando chego ao pé das torradas e do café, já estão frios. É sempre um debate temporal comigo próprio e com o tempo. Irrito-me com a temperatura. Chamo os cobertores para cima de mim, porque o frio é de morrer, mas na hora seguinte, ordeno que se retirem do meu corpo porque o calor superiorizou-se. A temperatura é dúbia. Essa maneira de ser faz-me mal. Irrito-me com aqueles que são anti qualquer coisa. Não sei conviver com gente que não tem ideologia própria e definida sobre determinada matéria e procura apenas deitar abaixo uma ideia defendida por outro. É ser anti porque fica bem ser isso. Não se gasta argumentos nem pensamentos. É se contra aquilo porque não se consegue formar uma opinião lógica que se imponha há que existe. Irrito-me com os ultras. O que é em exagero enjoa. Irrita-me a ignorância, a estupidez, a falta de raciocínio, as banalidades e a inteligência. A inteligência porque só existe para se opor à ignorância. Para tudo é preciso um oposto e um contrário e isso transtorna-me. A inteligência devia existir sozinha. Mas não, há quem queira continuar a ser ignorante para manter a tradição do equilíbrio entre as coisas. Chateio-me imenso com os grandes sábios do passado e escritores porque não pensaram nas dificuldades que nos iriam criar. O desassossego que tudo nos causa é o maior motivo para o envelhecimento espiritual e mental. Nós morremos um bocadinho por dentro todos os dias. Ficamos velhos e cansados por culpa das irritações diárias que temos.

Fico arreliado quando o Benfica perde. Quando o José Sócrates fala. Quando sou obrigado a ler um livro de 500 páginas. Quando leio uma crónica pouco proveitosa para o meu saber. Quando ouço uma pessoa a falar de igualdade social e da utopia social. Quando vejo pessoas a passarem por mendigos, quando não o são. Quando vejo um casal de namorados aos beijos e a fazer sons estranhos com a boca. Quando o Pinto da Costa é entrevistado. Quando ouço um debate na Assembleia da República, tendo como tema a vida privada de um cidadão, que no caso é um político. Quando vejo uma régua, um esquadro e uma folha e lembro-me de Educação Visual e trabalhos manuais. Quando estou a dormir e o despertador faz aquilo que foi feito para fazer. Quando acaba o Verão e começa a escola. Quando me lembro que vou morrer. Quando me lembro que vou envelhecer. Quando dou conta da minha ignorância. Quando não sei responder a uma pergunta. Quando não percebo o que os outros dizem. Quando os outros não percebem o que eu digo. Quando olho para números e lembro-me de Matemática. Quando me falta um euro para ter o dinheiro que preciso. Quando espero pelos outros. Quando sou ignorado e rejeitado. Quando o sono está de greve. Quando não me quero chatear e chateio.

E eu irritado, por tudo o que anunciei e muito mais, abuso da anáfora e vagueio pelas minhas inquietações.

 

Colunista:

Emanuel Areias

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