Veio a público, nas últimas horas, a notícia da expulsão de um conjunto alargado de técnicos/cooperantes, até agora ao serviço do governo de Timor-Leste, oriundos de variados países, de entre os quais Portugal.
Dos motivos que levaram o governo timorense a expulsar cerca de cinquenta estrangeiros que vinham desempenhando funções de altos cargos no sistema judicial, pouco ou nada se sabe, mas ou algo de muito grave se estaria a passar (fruto da responsabilidades destes cooperantes) ou algo de muito grave se passará, ao ponto de levar o governo a “fechar escotilhas” e tentar abafar o assunto internamente, sem mais justificações.
A verdade é que, desses 50 estrangeiros, sete são portugueses (cinco juízes, um procurador e um antigo oficial da PSP), a quem foram dadas apenas 48 horas para abandonar o território.
Já se vinha sabendo que os proventos do petróleo se vinham demonstrando insuficientes para promover o desenvolvimento do jovem país, em virtude de grande parte dessas verbas estar a ser conduzida para setores da sociedade instalada nos lugares decisórios, de modo a anestesiar fações internas e satisfazer grupos de poder.
Seguramente se assistirá nas próximas horas a um cruzar de versões, justificações e suspeições. Mas a verdade é que a atitude está tomada e a forma como os portugueses foram tratados não me parece condizente com o passado conjunto que percorremos desde o período da colonização portuguesa, passando pela invasão indonésia, até à independência timorense e à instalação de um novo sistema jurídico e institucional que garantisse a governabilidade nacional.
A indisponibilidade para se prestarem, mesmo que num modo diplomaticamente discreto, esclarecimentos quanto aos motivos subjacentes à medida radical tomada, demonstra que os responsáveis políticos timorenses nada já têm a perder!
Esta atitude de hostilização à comunidade internacional (que os vem ajudando e apoiando) sem a preocupação de, no mínimo, apresentar um motivo razoável ou “politicamente correto”, coloca-nos numa posição expectante face ao que estará para vir.
Estarão os contratos de exploração petrolífera (único garante da independência política e financeira do território) demasiado armadilhados em favor das empresas extrativas, tornando-se necessária a identificação de bodes expiatórios, leia-se cooperantes internacionais, para justificar seus efeitos à população? Ou terá o dinheiro acabado, correndo-se já o risco do poder voltar a cair na rua?
Seja qual for o desenlace deste desaguisado, e perante os engulhos que o facto gerou entre as instâncias governamentais internacionais, deste resultará um claro retrocesso nos laços de confiança entre a comunidade internacional e a nova nação de Timor-Leste, não sendo o nosso país a exceção.
Fruto de alegada ingerência e/ou incompetência estrangeira no sistema judicial ou, contrariamente, como resultado de anteriores processos e sentenças envolvendo altas figuras do estado, a verdade é que a desconfiança está instalada.
Tal como já foi assumido pelo governo português, todos (e são muitos) os contratos e acordos de cooperação com o governo timorense ficarão sob redobrada atenção, confirmando uma tensão diplomática inegável.
…e não sirvas a quem serviu.”
Assim reza o ditado popular!
Terra-Chã, 4 de novembro de 2014
Paulo Vilela Raimundo
Colunista: