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Também eu matei Bin Laden

Segunda, 10 de Novembro de 2014 896 visualizações Partilhar

Este mundo sempre assim foi, mas os poderes ocidentais instituídos e os média teimam em distorcê-lo ou maquilhá-lo mesmo debaixo do nosso nariz.

Enquanto alguns militares norte-americanos, pertencentes à elite dos Navy Seals que participaram em 2011, no raide à casa refúgio do líder da Al-Quaeda, em Abbottabad, no Paquistão, quebram o seu código de silêncio, reivindicando sequencialmente e em catadupa a morte de Ossama Bin Laden, somos surpreendidos pelo facto de quase nos termos esquecido (como se tal fosse possível!...) do papel de inimigo público nº 1, que este desempenhou durante algum tempo.

Fruto de políticas internacionais mal equacionadas, e das decisões daí resultantes, tomadas pelos aliados no rescaldo das duas guerras mundiais, fomo-nos habituando a que o Médio Oriente se mantenha em permanente turbilhão de instabilidades várias, como resultado de um conjunto de alterações e de delimitações territoriais artificiais, em arrepio das realidades locais e conjunturais dos povos que por lá habitam.

Esse fenómeno, que até há poucos anos se limitava a preencher colunas de jornais e curtos períodos dos noticiários televisivos, irrompeu no nosso âmago mais profundo com o 11 de Setembro de 2001, forçando-nos a entender que este mundo de tensões sociais, religiosas e políticas não se poderia manter eternamente em ebulição sem que algo de globalmente mau se passasse.

Na atualidade, e como fruto da negligência geopolítica ocidental e na menorização de tudo o que nos parece distante, o papel de inimigo público nº 1 foi usurpado pelas armas por Abu Bakr Al Bagdadi, o auto-proclamado Califa Ibraim do Estado Islâmico (EI).

Há semelhança de outras fações radicais da jihad islâmica, o auto-proclamado Califado alimenta-se de extremistas muçulmanos de etnia sunita, que oriundos de faixas da população mundial marginalizada e impossibilitadas de aceder ao occidental way of life, se refugiam na senda dos ódios coletivos, como paliativos perante a inexistência de futuro para si e para os seus.

Saliente-se que, por muito que se tente colorir a realidade, estes alegados terroristas saem claramente dos modelos predefinidos, ao constituírem-se como um verdadeiro exército, ocupando um território devidamente identificável e com demarcações fronteiriças, administrando-o e investindo nele significativas verbas na manutenção e desenvolvimento das suas infra-estruturas.

Por tudo isto não se poderão analisar os factos como simples visões extremadas e distorcidas da realidade, impondo-se que sejam analisadas e entendidas como o resultado de demasiados erros da secular política internacional e do divórcio social entre os ricos e os pobres desta aldeia global.

O combate ao terrorismo religioso e ao afrontamento continuado entre os países do sul (pobres) e do norte (ricos) não avançará com o apelo simplista ao bom senso dos moderados, obrigando inequivocamente ao respeito mútuo, ao entendimento do outro e, mais importante que tudo, a um reaproximamento social no globo, redistribuindo-se a riqueza e qualidade média de vida num modo tendencialmente equitativo e equilibrado.

Perante os erros cometidos, e (para quem só entende uma linguagem financeira) o custo que lhes está associado, é chegada a hora de aprendermos com o passado, tomando como nossa uma expressão proferida por António Lobo Antunes (em entrevista recente): “…a minha memória é terrível. Tenho uma memória péssima, lembro-me de tudo”.

Que de uma vez por todas se aprenda a recorrer a essa memória, e que dos ensinamentos que esta nos dá, resultem medidas de envolvimento dos moderados (multiplicando-os) e de isolamento dos radicais (neutralizando-os), retificando assimetrias regionais, sociais e/ou religiosas, em prole de um mundo melhor.

Terra-Chã,  8 de Novembro de 2014

Paulo Vilela Raimundo

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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