Já nem chega a ser novidade quando manchetes negativas e condenatórias invadem generalizadamente os meios de comunicação social nacional, relembrando-nos os motivos que nos levaram ao ponto (aparentemente) sem retorno em que se depara o nosso país.
Recentemente fomos confrontados com um bloqueio da globalidade do sistema judiciário, como resultado de uma reforma judicial precipitada e de um malfadado programa de gestão processual centralizado (Citius), que durante mais de um mês suspendeu, como num limbo, processos a decorrer nos tribunais nacionais, criando obrigatórios constrangimentos e prejuízos múltiplos que assolaram todo o território português, sem exceção.
Numa tentativa frustrada de dissimular a irresponsabilidade política pelas (más) decisões tomadas e de manipulação pública (como alguns defendem), prontamente se procuraram bodes expiatórios (nas pessoas de dois elementos da Polícia Judiciária requisitados pelo Ministério da Justiça para desempenhar funções na área da informática) envolvendo-os num processo de inquérito-crime por alegada sabotagem que, sendo encerrado pelo Ministério Público por falta de fundamento, acabou por incendiar, mais uma vez, as relações da governante da tutela com a Ordem dos Advogados e demais segmentos profissionais envolvidos na polémica.
Pouco tempo depois, e com enormes riscos humanos ao nível da saúde pública, desencadeou-se na principal área metropolitana nacional (no concelho de Vila Franca de Xira) um dos maiores surtos de Legionella de que há memória no globo.
Fruto de desleixo industrial algo generalizado, acobertado por prováveis estratégias economicistas e como resultado da negligência de uns poucos, assistimos nos últimos dias à contaminação de uma vasta área territorial, provocando a contração de uma doença que afetou gravemente o sistema respiratório de mais de três centenas de nossos concidadãos, dos quais já morreram perto de uma dezena.
Como se não bastasse, eis que surge nas últimas horas um novo sobressalto criminal, desta feita associado ao deslumbramento de novo-riquismo conhecido entre nós como os vistos Gold, a que terão acesso os cidadãos estrangeiros que possam comprar (ou fingir comprar) os direitos de livre circulação no Espaço Schengen.
Num processo (algo kafkiano) de corrupção ao mais alto nível do estado português, e como consequência da mega operação “Labirinto”, assistimos atónitos à prisão de onze suspeitos por múltiplos crimes de “corrupção, branqueamento de capitais, tráfico de influência e peculato”, entre os quais se encontram o diretor do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), o presidente do Instituto dos Registos e Notariado (IRN), a secretária-geral do Ministério da Justiça, a secretária-geral do Ministério do Ambiente (e sócia do Ministro da Administração Interna e do ex líder do PSD Luís Marques Mendes) e alguns outros… a que surpreendentemente se associam “colaborações amigas” de personalidades (e/ou serviços do Estado) como o responsável máximo do SIS e de funcionários na sua dependência na limpeza de alegado lixo informático que, protegendo (?) os suspeitos, dificultaram o esclarecimento integral da verdadeira dimensão desta rede e das consequências dos atos criminosos eventualmente cometidos.
Tudo isto num país que se diz democrático, respeitador do direito instituído e empenhado numa recuperação rápida e eficaz da situação intolerável em que se encontra…
Muitos de nós pensarão: Em que raio é que poderei confiar?
Não existindo respeito e confiança nos símbolos nacionais e nos múltiplos (e muitas vezes tentaculares) segmentos do Estado, nem real alternativa exigida frontalmente por toda a sociedade civil, seremos forçosamente obrigados a concluir que, deste modo não chegamos lá!
Terra-Chã, 15 de novembro de 2014
Paulo Vilela Raimundo
Colunista: