Eu, tal como muitos da minha geração, cresci acompanhado de pequenos livros de banda desenhada profusamente povoados por super-heróis.
Estes, injustificadamente vestidos de fatos de lycra de duvidoso gosto, enfrentavam todos os males que assolavam o planeta, vencendo sistemáticamente todos os maléficos criminosos e solucionando garbosamente todos os cataclismos a que este estaria sujeito.
Passadas algumas décadas os "livros de quadradinhos" quase que desapareceram, tornando-se peças de coleção, que só interessam a colecionadores e a outros seres algo exóticos.
Curiosamente somos sempre surpreendidos pela necessidade que a nossa sociedade demonstra, perante o sentimento de orfandade e de impotência, face aos múltiplos perigos que, desta feita, assolam o nosso país.
Aos super-heróis da atualidade, que trocando os fatos de lycra por negras togas, reinam nos tribunais nacionais, exige-se que corrijam todos os vícios inibidores do progresso nacional e que prendam todos os prevaricadores que denegrindo os simbolos nacionais põem em causa a imagem internacional desta nação de oito séculos de existência, mantendo-nos todos nós no papel de simples espectadores, sem que para tal nos seja exigido qualquer tipo de intervenção ou alteração de conduta.
Talvez fruto da idade que vou tendo, despertam em mim dúvidas e reticências face a determinado tipo de esperanças ou de coincidências.
Constato que na península ibérica se replicam os mesmos ritos e se partilha da mesma fé.
Se os "nuestros hermanos" podem contam com o super-juiz Baltazar Garzón, logo fomos encontrar um sósia luso de nome Carlos Alexandre que, qual D. Quixote, está mandatado por todos nós para, unicamente e só, assumir todos os casos inerentes a crimes de "colarinho branco" que coincidentemente invadiram os nossos tribunais e as nossas vidas (por especial favor dos orgãos de comunicação social).
Não sei se esta série de casos tornados públicos, que florescem quase que semanalmente, e a publicitação imediata de detalhes que em teoria deveriam manter-se em segredo de justiça, são pura coincidência ou se revelam, como já se diz, um aflorar iceberguiano de tensões e conflitos generalizados entre os variados atores e grupos de influência e de poder com interesses em Portugal.
A verdade é que, se a legislação em vigor não mudou e os vícios e excessos de poder se vêm mantendo, torna-se estranha tamanha atividade das entidades policiais e judiciais, nesta saga de aparente dignificação do estados e dos seus agentes, logo após décadas de impunidade afrontosa e cumplicidades multiplas aos olhos de todos.
Sem por em causa a capacidade técnica e a coragem do juiz Carlos Alexandre, ressoa-me na cabeça o ditado popular que aconselha a “não por os ovos todos no mesmo cesto”.
Será que dentro dos quadros judiciais deste país não existirão mais magistrados competentes e com coragem para acompanhar estes processos?
Será que com toda a afluência de processos recentes atribuída ao mesmo magistrado não se estará a contribuir que tudo se mantenha na mesma?
Será que não nos estão a dar um presente natalício antecipado, na forma de um fogo de artifício de escandalos palacianos, para dispersarem as atenções sobre lutas intestinais pelo poder?
Eu falo por mim: gostaria de passada a tempestade recuperar a confiança no meu País, nos simbolos nacionais (e organismos que o representam) e no futuro de todos nós!
Terra-Chã, 27 de novembro de 2014
Paulo Vilela Raimundo
Colunista: