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É lixado ter que morrer para se ser reconhecido!

Quarta, 03 de Dezembro de 2014 962 visualizações Partilhar

Se é bem verdade que se morre todos os dias, e que após essa data grande parte dos defeitos do falecido tendem a ser esquecidos, não deixa de ser curiosa a prática generalizada de desvalorização do próximo na sua idade mais avançada, para depois o considerarmos insubstituível após a morte.

Debruçando-me sobre este rito tão nosso, verifico que ainda em fase produtiva, tendemos a marginalizar os mais idosos no seu local de trabalho, por se considerar erradamente que a sua experiência e (alguma) prudência (por vezes confundida com conservadorismo) poderão ser substituídas pelas novas teorias e conceitos, defendidas como sinal obrigatório de futuro de progresso.

Este tipo de atitude agrava-se com a reforma desse sénior, pois ao tornar-se um aparente fardo para os seus familiares, rapidamente é descartado num lar ou deixado à sua sorte na sua casa sem, por vezes, qualquer tipo de acompanhamento ou relacionamento de proximidade.

Aproximando-se época natalícia tão importante para as famílias, vi-me confrontado com a vontade de abordar a matéria, comparando esta atitude tendencialmente generalizada nas sociedades ocidentais, com a praticada na maioria dos países dos continentes africano e asiático.

Nessas paragens, os anciãos são acarinhados, respeitados e (principalmente) escutados, pois o saber acumulado por estes são de primordial importância para os seus e para a construção do seu futuro coletivo.

Ao continuarmos com este tipo de procedimento não estaremos a negligenciar um potencial essencial para a sobrevivência da nossa família e do nosso país?

Imagine-se que, nas famílias e nas empresas se começaria a adotar um regime de continuidade nos conceitos e nas ações, onde todos sem exceção teriam um papel a desempenhar, substituindo-se a atual prática de afrontamento e de sucessão (pessoas, ideias, procedimentos,…) por uma estratégia de equipa, onde se discutissem as situações conjunturais, ponderando-se os prós e os contras para cada cenário, concluindo-se por uma decisão partilhada que usufruísse das cautelas e conhecimentos ancestrais e das novas correntes de pensamento e estratégia caracterizadoras das gerações mais novas.

Talvez já seja tempo de contrariar o ditado “santos de casa não fazem milagres”, rejeitando a prática provinciana e irresponsável de votar ao esquecimento um cada vez mais expressivo segmento da nossa sociedade.

Saibamos pois, reconhecer o mérito e os conhecimentos adquiridos dos nossos pares mais idosos, integrando-os no trabalho e na família, de modo a não descobrirmos tarde de mais a importância e a falta deles.

Post Scriptum: Morreu José de Almeida. Independentista convicto que, viveu os seus ideais de um modo frontal, sentiu-se traído por alguns dos seus pares, tornou-se incómodo em certos círculos da região e do país, deixando-nos com o reconhecimento generalizado dos que ficam...

 

Paulo Vilela Raimundo

Angra do Heroísmo, 2 de dezembro de 2014

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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