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Escreviver

Quarta, 17 de Dezembro de 2014 896 visualizações Partilhar

Acabo de roubar esta bengala linguística, não só para apelar à sua curiosidade como leitor, mas essencialmente pela surpreendente verdade de síntese nela contida.

Dando continuidade a este meu vício (algo recente) de emitir opinião por escrito, concluo ter sido esse mecanismo de auto análise que me vem garantindo alguma lucidez e sanidade mental que me abastece da necessária capacidade de suportar este périplo coletivo, face a uma tempestade que não finda e perante a qual todos os princípios que gostaríamos de acreditar tendem a afundar como barcos de papel.

Num período pré-natalício, e próximo do fim de mais um annus horribilis, não devo ser o único que me interrogo sobre o que desapareceu no nosso pequeno mundo da família e de como deveremos dar início a um novo ciclo, em busca da confiança no futuro perdido.

Se bem que os noticiários televisivos nos bombardeiam/estimulam com imagens de espaços comerciais plenos de compradores compulsivos, a verdade é que no mundo/meio em que (sobre)vivemos deparamos com vizinhos, amigos, familiares,… que se martirizam por não conseguirem garantir a alimentação básica aos seus, nem a dignidade mínima conferida pelo trabalho.

Ao teimar-se em considerar que o futuro poderá compactuar com um planeta subdividido em regiões ricas e pobres, com o aumento das disparidades e desigualdades consolidadas nas últimas décadas e onde os direitos estão diretamente associados a raças ou credos, continuar-se-á a contribuir para a manutenção de condições propícias ao extremismo político ou religioso, que irrompendo um pouco por todo o lado, se propaga como fogo em seara seca.

Creio que todos ficámos boquiabertos ao saber que os 85 multimilionários mais ricos do mundo concentram a mesma riqueza que 50% da população do globo, correspondente a cerca de 3,5 mil milhões de pessoas (dados da OXFAM).

Recuso-me a aceitar sem revolta a afirmação de Manoel de Oliveira que, do alto do saber que os seus 106 anos lhe conferem, afirma que “a vida é uma derrota”.

Mas, a verdade é que isto assim só pode acabar mal!

Todos vivenciamos um período que poderá corresponder a um fim de ciclo, onde as alterações dos conceitos básicos de vida se modifiquem radicalmente, numa abrangência generalizada internacionalmente, mas urge travar o empobrecimento generalizado devolvendo o direito ao trabalho e à dignidade de todos os povos.

Basta de estimular um falso e premeditado voyeurismo justiceiro primário, onde aparentemente se arrastam os ricos e poderosos para julgamentos na praça pública, como paliativo pseudo democrata para todos os nossos males (…um pouco à semelhança da face negra revolução francesa e ao uso da guilhotina).

Contra tudo o que a dura realidade aconselharia, quero acreditar que o novo ano que se avizinha se revelará mais fraterno e respeitador do próximo, onde numa sociedade global mais transparente e participativa, se assistirá a uma proliferação de movimentos de cidadania que, fortalecendo as estruturas sociais e de governo, extinguirão os focos de pobreza extrema e de desespero generalizados, dificultando a arregimentação de novos extremistas/terroristas em prole de uma pacificadora bonança, propícia à reconstrução do sonho.

Que 2015 se revele como um ano de construção de pontes, soçobrando as trincheiras que nos impedem de ver o nosso semelhante.

 

Terra-Chã, 17 de dezembro de 2015

Paulo Vilela Raimundo

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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