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Da invenção da roda ao uso do petróleo como arma

Segunda, 22 de Dezembro de 2014 924 visualizações Partilhar

Há seis milénios, e algures na Ásia, alguém inventou a roda, desencadeando uma inegável revolução em matéria de transportes e comunicação, que modificou definitivamente o mundo.

Desde então, assistimos a um vertiginoso processo evolutivo global que, passando pela Revolução Industrial iniciada em meados do século XVIII em Inglaterra, rapidamente se alastrou ao mundo ocidental e daí ao resto do planeta, inevitavelmente colocou o globo numa total dependência da energia, que começando no uso da madeira/carvão, de imediato se direcionou para o consumo quase que em exclusivo de combustíveis fósseis (petróleo e gás natural).

A partir de então, e como resultado da busca do progresso generalizadamente deificado, pela via da industrialização, criaram-se ascendentes e dependências entre povos e nações, como resultado da posse (ou falta dela) desse novo ouro negro.

Ao longo dos últimos dois séculos fomos assistindo a jogos políticos entre nações, que pagando por vezes preços humanos demasiado elevados, se vêm digladiando pelo poder que esses produtos lhe conferem e que em alguns casos se tornaram conflitos à escala global.

Em pleno século XXI continuamos a lutar pelos mesmos símbolos de poder, só que desta feita se vem assistindo a uma modificação e/ou alargamento do tipo de protagonistas, que roubando o “monopólio” aos países, vem intensamente atraindo variados grupos e fações com motivações várias, onde se inserem os novos grupos terroristas/extremistas como o Boko Haram (Nigéria) e o [E.I.] Estado Islâmico (Síria e Iraque).

Nestes dois casos, e numa tentativa de imposição pela força cega e insana de regras pseudo religiosas de raiz alegadamente islâmicas, comprova-se a importância que os recursos petrolíferos podem conferir à máquina de guerra e terror instalada nesses territórios, dificultando sobremaneira as estratégias de combate, até agora pouco eficazes, na defesa das populações envolvidas.

Não se pense porém que se trata de um fenómeno marginal. Nos mesmos cenários onde televisivamente assistimos a episódios criminosos perpetuados por seres aparentemente insanos, também encontraremos os verdadeiros potentados nacionais, que usufruindo do direito de pertencer ao omnipresente grupo dos G8, não se coíbem de “ir a jogo” em luta pelo controle do planeta.

Nessa guerra de titãs que vem confrontando os países produtores (EUA, Rússia, China, Arábia Saudita e outros demais…) vão surgindo no horizonte civilizacional algumas “nuvens negras” que deverão preocupar-nos, pelo risco que se lhe encontra associado.

Como resultado da descida abrupta do custo do petróleo, fruto do novo petróleo/gás de xisto e do acréscimo de petróleo em rama que invade os mercados internacionais, voltam a mexer as balanças do poder, pondo em risco a estabilidade de vastos territórios, que vinham vivendo à custa da faustosa margem de lucro que o ouro negro propiciava.

Fruto deste fenómeno, atente-se no que se passa atualmente na Rússia, que vindo há mais de uma década a usar os dividendos energéticos para manter um regime político-económico de quase rutura com os seus adversários do jogo de poder, assiste nos últimos tempos ao soçobrar de um “castelo de cartas” personificado por Putin, conjugando a desvalorização do petróleo, do gás natural e de 50% do valor cambial do rublo (no período de menos de um ano), que agravado pela aplicação de sanções pelos Estados Unidos e pela Europa (em resposta à situação da Ucrânia) contribuíram em simultâneo para que a já frágil economia russa se aproxime da bancarrota.

Tal como na natureza, os líderes políticos tendem a tomar atitudes desesperadas quando confrontados com situações limite, e Putin tem fundamentado a sua estratégia governativa em apelos saudosistas ao nacionalismo, apelando à memória das gradezas passadas e tomando atitudes arriscadas de mobilização de massas como a verificada na vizinha Ucrânia.

É nestes casos que seria conveniente um mundo a preto e branco, mas a verdade é que as culpas estão disseminadas e ninguém se poderá assumir inocente!

Este permanente estado de tensão e de conflitos entre grupos de poder, ignorando as populações que acabam sempre por assumir o preço da disputa, tem-se intensificado com a perda de influência económica e política dos EUA face à China, levando a que no decurso dessa guerra de bastidores possam ocorrer fenómenos que, associados à crise financeira que se atravessa, ameaçam vários países com a bancarrota e consequente perda de independência.

Até poderemos estar a iniciar um novo ciclo da história da humanidade, levando a que alguns países que considerávamos verdadeiros potentados possam soçobrar.

Não nos esqueçamos é que os gigantes (mesmo que ficcionados) ao cair provocam ondas sísmicas. Alguém estará preocupado com os potenciais riscos que daí advirão?

 

 

Terra-Chã, 18 de dezembro de 2014

Paulo Vilela Raimundo

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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