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A grandeza do nosso umbigo

Sexta, 02 de Janeiro de 2015 909 visualizações Partilhar

Nesta época, regozija-se o senhor pelo pouco bem que fez num ano. E a senhora, de bom grado, sorri por ter dado uma manta e uma refeição a um daqueles mendigos da rua. É só o regalo do corpo. Mas também é a humilhação do espírito. Nesta época, somos uns demagogos interiores, e agimos em virtude de datas e dos cheiros natalícios. Ficaria feio não ser mais humano nesta época do ano que chamam Natal. Mas o que é Natal? É a mentira sorrateira da boa ação humana. Acho que em pleno mês de Dezembro, tornamo-nos mentirosos. Saímos à rua, abraçando o nosso melhor amigo, sem despender um bom abraço ao nosso melhor inimigo.

São só sorrisos de momento, para dar feição positiva à quadra natalícia. Há que respeitar o nascimento de Jesus, pensam os cristãos praticantes e não praticantes. Interessa sempre ser mais humano no Natal, nem que para isso seja preciso enveredar pelo caminho do teatro social. Nestes dias, os maus da fita e aqueles que são ruins, tornam-se bonzinhos demais. É de desconfiar. Passa o dia 1 de Janeiro do novo ano, e a máscara cai. Os valores verdadeiros da maldade e da inveja subtil apoderam-se das cabeças das gentes e tem de se esperar um ano inteiro por um novo grito de falsidade de espírito.

Os rostos sorridentes dos viciados consumistas fazem crescer as receitas dos grandes centros comerciais e das lojinhas de lembranças. Cresce a economia, baixa a dignidade humana. Cresce o consumismo, baixa o amor e a amizade. Cresce a falsidade, baixa a verdade. Neste termómetro do bom e do mau, cresce o acessório, baixa o que é útil. Perde-se a humanidade para o cobarde orgulho social. Perdem-se valores para a presunção.

De ano para ano, o Natal assume-se uma objeção da vida humana. Uma época criada pelo capitalismo, que só destrói carteiras. De que vale haver um tempo específico para dar mais, para agradecer mais, para amar mais ou para ser mais amigo ou amiga dos outros. O nosso próximo que passa dificuldades no Natal é aquele que passa 365 dias do ano com as lágrimas no canto do olho sem comida e com as contas por pagar. Mas faz-se tudo por ele no Natal só porque fica bem.

Cada vez mais importa a grandeza do individual em detrimento do coletivo. Unem-se mãos por obrigação temporal e não por gosto. O nosso umbigo conjuga em si a total antipatia para com os outros umbigos. Embebeda-se na sua soberba e aproveita as festas para se divertir e sorrir muito aos olhos das pessoas.

Natal é família? Foi.

 

 

Colunista:

Emanuel Areias

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