No momento em que vos escrevo, grande parte do mundo ocidental está paralisado com o ignóbil atentado criminoso concretizado esta manhã na sede do jornal satírico francês Charlie Hebdo.
Aparentemente, numa atitude retaliadora contra a liberdade de imprensa e de opinião, foram mortos doze jornalistas e feridos mais oito, pelo facto da publicação a que pertencem ter afrontado o tema do islamismo religioso.
Não se tratando de uma atitude nova (veja-se o que vem ocorrendo um pouco por todo o globo não ocidentalizado...) o “murro no estômago” resulta constatação da capacidade de grupos extremistas, mais ou menos enquadrados política e/ou financeiramente, prepetrarem com sucesso atentados deste tipo no âmago de uma capital europeia como Paris.
Em sintonia de causas, todos nós nos sentimos unidos na afirmação veiculada hoje pelo jornal Expresso “Nós somos o Charlie Hebdo. Nós jornalistas. Nós leitores. Nós todos.”, mas a verdade é que todos nós temos sido demasiado passivos face aos atos intimidatórios e de censura que se instalaram de “armas e bagagens” no nosso quotidiano.
Qual de nós não omitiu já a sua opinião sobre determinado assunto, para não por em causa a sua posição laboral, o seu relacionamento interno no organismo onde colabora ou certa relação de “amizade” ou afim?
Qual de nós não sentiu na pele o preço por ter opinião diversa da maioria?
A realidade é que a culpa é nossa!
Mesmo em regimes ditos democráticos, verificam-se ocorrências e mecanismos de resistência e (por vezes) sancionatórios, implementados pelos detentores de algum tipo de poder, resistentes à proliferação da dignificação do ser humano a partir da consolidação da liberdade individual e do seu direito à opinião.
Temos acreditado excessivamente que o nível de vida onde julgamos estar inseridos, nos protegerá eternamente dos desesperados e daqueles que, não tendo futuro nem nada a perder, se tornam “ovelhas mansas” para os “rebanhos” controlados por extremistas, fundamentalistas e criminosos.
Este atentado contra a liberdade de imprensa e liberdade de opinião vem engrossar a lista dos mártires que, no pressuposto de viverem em estados de direito, teimam em emitir a sua opinião e confrontar a sociedade (algo) apática e permissiva com aspetos do quotidiano que não deveriam medrar, sob pena de termos de enfrentar um problema generalizado de MEDO e de perda de confiança nas instituições que nos deveriam proteger.
Revolta-me, não só o ocorrido hoje, como todos os pequenos nadas que nos inibem e condicionam as nossas liberdades e o direito de ter opinião.
Um pouco a propósito, recordo que Jean-Paul Sartre (filósofo, romancista e dramaturgo francês) tentou rejeitar a atribuição do prémio Nobel da literatura de 1964, tendo recusado outras homenagens e nomeações, por (entre outros motivos) desejar continuar a emitir a sua opinião, sem com esta comprometer os prémios e/ou entidades que a elas estivessem ligados...
Desafio-vos a manter presente a noção de necessidade imperiosa de defender com “unhas e dentes” esses direitos tantas vezes abdicados, para que todos aqueles que pela força nos tentam intimidar se sintam isolados e sejam forçados a desistir dessa estratégia.
Contra o medo que nos tolhe, torna-se obrigatório condenar estes atos e impedir a sua reincidência.
Terra-Chã, 7 de janeiro de 2015
Paulo Vilela Raimundo
Colunista: