Sente-se epidermicamente que muito está a mudar e que o mundo que todos conhecemos necessita de algo realmente importante para se renovar, reaprendendo a ter esperança.
Paris, como bastião incontornável da realidade/sociedade dita ocidental, já anteriormente tinha assumido o papel pioneiro de rompimento com o passado e de, a partir de manifestação da cidadania anónima, reivindicar a mudança do amanhã.
Os atentados verificados esta semana na capital francesa, e as dezassete vítimas mortais daí resultantes, em muito potenciados pelo facto de ter sido atingida uma das “vacas sagradas” da atualidade (leia-se: comunicação social/Charlie Hebdo), desencadearam de imediato reações condenatórias à escala global, que até agora conseguiu reunir povos, religiões e ideologias, disso dando prova com uma manifestação que contou com a presença física de mais de um milhão de pessoas e entre as quais estiveram presentes vários líderes mundiais do presente status quo.
Já na última década do século XVIII, os franceses, liderados pelas suas elites revolucionárias de então, promoveram o fim de um regime monárquico absolutista, caracterizado como corrupto e decadente, substituindo-o por uma república tendencialmente respeitadora dos ideais da liberdade, igualdade e fraternidade, que veio a influenciar toda a humanidade e a acelerar o fim de inúmeras monarquias europeias, em prole da democracia republicana.
Também com o designado “maio de 68”, o mundo foi forçadamente acordado pela revolta dos jovens e estudantes que, mais uma vez, a partir das margens do Sena, se transformou num dos acontecimentos mais importantes do século XX, na caminhada para o progresso da humanidade, e que não se cingindo a uma camada restrita da população, compaginou uma insurreição popular que superando barreiras étnicas, culturais, de idade e de classe, se bateu (mais uma vez) por uma rotura com a "velha sociedade", contrapondo ideias avançadas sobre a educação, a sexualidade e o prazer.
Talvez estejamos hoje perante uma nova oportunidade de, em homenagem aos que tombaram, potenciarmos o clima de união de valores e as pontes efémeras criadas para, fortalecendo esses laços ainda ténues, consolidarmos o respeito e o direito à liberdade e opinião dos nossos semelhantes, mesmo que estes possuam diferente nacionalidade, professem de outra religião os sejam apologistas de ideologia diversa da nossa.
No respeito ao próximo, e apelando ao tão falado bom senso, não só deveremos ter presente que nada justifica a barbárie, como deveremos entender que a desconstrução da realidade através do humor (goste-se ou não se goste) não deixa de enquadrar-se no âmbito do nosso direito individual de opinião e da nossa obrigatoriedade de, em verdadeira liberdade, equacionarmos permanentemente o mundo que nos rodeia, identificando construtivamente o que pode (e deve) mudar no nosso quotidiano social.
Incomoda-me claramente que os atos cometidos nos últimos dias possam encontrar conforto naqueles que, de entre nós, verbalizam máximas como “…eles estavam a pedi-las!”
Numa primeira fase, e porque quem assim pensa mora na nossa rua, é nosso colega de trabalho ou é membro da nossa família, deveremos (sem paternalismos ou privilégios opinativos…) fazer-lhes entender que o risco de se justificar a barbárie com alegadas profanações de tabus, arrastar-nos-á coletivamente para um gueto de medo e de terror, que em vez de nos levar a um futuro construído em torno de valores primeiros como a liberdade, igualdade e fraternidade entre indivíduos, povos e religiões, se tornará tendencialmente num círculo de trevas onde a paz dará lugar ao ódio e o futuro cederá perante o medo.
Será que “…à terceira é de vez!” e é desta que aprenderemos a respeitar os nossos iguais e a poder contar com o mesmo tipo de direitos e ambições?
Terra-Chã, 11 de janeiro de 2015
Paulo Vilela Raimundo
Colunista: