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O fado de Fábio Ourique & Sombras do Fado

Segunda, 19 de Janeiro de 2015 1342 visualizações Partilhar

Nunca gostei de fado. Aprendi a desconhecê-lo. Aprendi a não senti-lo. Os jovens de agora passam longe do fado, porque não o aceitam como ele é: pessimista, sombrio, mas perfeitamente belo. É a cara de um país, a cara de um povo. Vagueio por Lisboa, e a só sinto o cheiro a fado. Em cada rua, vive-se a alma de ser diferente: de gostar de ser bom português, amando fado porque fado é bom. É maravilhoso, é delicioso. Um português para amar Portugal, deve amar o fado.

Eu não gostava de fado até ouvi-lo. Até senti-lo. Hoje amo-o.

A culpa é do Fábio Ourique, fadista primoroso, que difunde talento pelos palcos da minha ilha. A voz é rara. A voz deste rapaz arrepia a espinha e faz chorar os mais sensíveis. Por muito que a sensibilidade tente ser racional bastante, não suporta a emoção transmitida pelos lábios do fadista terceirense. Ele fez-me gostar de fado. Foi uma boa influência. A culpa é toda dele. Hoje sou eu que forneço os cds de fado a ele.

A partir do momento em que comecei a viver em Lisboa percebi que a ilha Terceira é pouco para ele. Com o talento natural e a voz divinal, altos voos o esperam no mundo da arte. O Fábio brilha sem brilhar por necessidade. É natural ele brilhar. Mesmo sem ele querer, está condenado a ser bom.

Um fadista não é nada sem bons tocadores. Os Sombra dos Fados acompanham o Fábio Ourique, demonstrando uma qualidade artística acima da média. Ele está tão bem para aqueles tocadores, como aqueles tocadores estão tão bem para ele. Foram feitos uns para os outros. E assim se faz arte. O Tiago Lima distingue-se por ser um guitarrista maravilhoso, que brota sumptuosidade e engenho através dos movimentos das suas mãos quando tocam na guitarra portuguesa. Foi feito para ser artista. O destino assim quer. E é tudo natural nele. Atua sem artificialidade artística. O Emanuel Coelho aconchega a guitarra portuguesa, com a sua viola do fado. Mais um que constrói arte pelo dom que tem, sem precisar de muita coisa. É o génio da viola. O Fábio Silveira veio do Pico para a Terceira, completar o trio de tocadores. Com o seu contrabaixo faz a diferença toda. Aquele som que preenche os ouvidos e dá uma sensação divinal é conseguido por culpa do picoense.

Estou radiante por ter na minha ilha um grupo de fado com esta qualidade. Eles merecem mais. Eles merecem voar mais. Eles merecem zarpar pelo mundo fora, procurando transmitir os dons que têm para preencherem as almas dos comuns mundanos. Aposto neles!

 

Colunista:

Emanuel Areias

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