Se soubessem como odeio sentir-me refém do pessimismo, entenderiam os motivos e o estado de espírito que me levam a escrever este texto.
Não bastando a crise globalizada provocada pela alta finança, ainda teriam que cair em catadupa adversidades várias que, no conjunto, definem um futuro negro para a ilha Terceira e para os Açores.
Agravando ainda mais a situação, as decisões de Bruxelas vieram por fim às quotas leiteiras e impor restrições ao nível das pescas, demonstrando da pior maneira que os nossos decisores do Terreiro do Paço oscilam nos seus atos de governação, entre a solidariedade nacional e o interesse em benefício próprio, doa a quem doer.
Se no que diz respeito à regulamentação estratégica da gestão e exploração dos fundos marinhos atlânticos os açorianos, e o governo que os representam, foram deixados à margem da discussão, no caso da Base das Lajes o problema ganha contornos mais negros, ao vislumbrar-se que poderemos ter sido utilizados como moeda de troca.
Para quem serviu de mão-de-obra barata, desde o rescaldo da II Guerra Mundial e ao longo de todo o período subsequente, na manutenção de um complexo militar que acarretou com o seu funcionamento inúmeros riscos de segurança e custos ambientais, torna-se inqualificável o sentimento de abandono e/ou “promoção” a simples “bomba de gasolina” (como cruamente caracterizada pelo general Philip Breedlove, comandante das forças norte-americanas na Europa).
Alguém se vem esquecendo dos riscos de guerra permanentemente existentes para quem habita nas imediações de uma base militar desta natureza, dos efeitos nocivos para o ambiente provocados em terra e no mar (poluição de aquíferos subterrâneos provocados por reservatórios e/ou condutas de combustíveis americanos, despejos continuados de resíduos radioativos nos mares dos Açores, destruição generalizada da paisagem natural de vastas áreas do território terceirense com infraestruturas abandonadas ou a abandonar a curto prazo, …), que só vêm agravar a sensação de abandono e traição por quem nos deveria defender.
Se antes da adesão plena de Portugal à União Europeia a utilização da BA4 era compensada em dinheiro (que por sua vez era canalizado quase que integralmente para os cofres do estado português), essa prática diluiu-se tendencialmente com a integração plena na U.E. com a manutenção de benefícios (tendencialmente nulos) para os açorianos.
Provavelmente nessa época alegar-se-iam altos interesses de estado para tal consequência...
Curiosamente agora, continuam a usar dos mesmos eufemismos para nos dizer que a solidariedade nacional é negociável e o que conta é o número de votos.
É verdade que somos poucos. Mas é uma vergonha para qualquer português que assim se sinta, saber que alguns dos seus compatriotas foram prejudicados ao ponto de já se prever uma emigração tendencial de 10 a 20% dos habitantes da ilha Terceira, pelo facto de terem sido vendidos, em nome dos “superiores interesses da nação” e dos seus aliados da UE e da NATO.
Mesmo que o Governo da República entenda que não deve afrontar a decisão dos EUA (por vontade própria ou por incapacidade para tal), não poderá nem deverá libertar-se da responsabilidade de, em parceria e colaboração com o Governo Regional dos Açores, promover urgentemente a concretização de todo um conjunto de medidas compensatórias que, em regime de plena solidariedade nacional e em reconhecimento dos benefícios até aqui advindos da existência da BA4, promovam o reequilíbrio financeiro e social de uma parte do território nacional habitado por (apenas) 55.000 almas que se orgulham, há cerca de meio milénio, em serem portugueses.
Mesmo que desautorizado e menorizado pelos nossos governantes do Terreiro do Paço, o Governo Regional dos Açores apresentou recentemente um Plano de Revitalização Económica da Ilha Terceira, que inclui medidas para as componentes; laboral, económica, ambiental e de infraestruturas.
Pois que venha a implementação desse plano, pois todos nós terceirenses (de nascimento ou por opção) já estamos fartos de (sobre)viver neste limbo das indefinições.
Angra do Heroísmo, 20 de janeiro de 2015
Paulo Vilela Raimundo
Colunista: