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O grito

Terça, 27 de Janeiro de 2015 870 visualizações Partilhar

Bom seria que este tema viesse a propósito da obra-prima do norueguês Edvard Munch, que datada de 1893, representa uma figura andrógina num momento de profunda angústia e desespero existencial.


Torna-se, porém, curioso pensar nesta obra e sentir o paralelismo entre ela e o resultado das eleições gregas do passado domingo, onde toda a Europa se viu confrontada com um resultado eleitoral que, retumbantemente, dá a vitória ao Syriza em prejuízo dos (até aqui) partidos do “arco da governação”.


O verdadeiro “sismo” expectável que assolou a Grécia, está a abanar com as suas réplicas todo o sistema político-partidário da Comunidade Europeia, forçando a uma reflexão profunda sobre o modo como lida com os seus eleitores, preterindo sistematicamente estes em prole dos poderosos grupos de poder financeiros internacionais.


Dificilmente acreditaremos que este resultado se tornou possível porque o manifesto eleitoral do partido vencedor dava maiores garantias de futuro, mas a verdade é que a escolha foi tomada entre a continuação de uma governação opaca, manietada pelo eixo Berlim/Bruxelas e sem efeitos práticos favoráveis à maioria da população e o fim de um sistema subserviente e distante da realidade grega, que como bónus propicia a devolução da esperança no futuro (mesmo que esta seja realisticamente efémera).


Como todos sabemos, o que se passou na Grécia não é tão diferente do que se poderá vir a passar a curto prazo nos demais países (ditos pobres) do sul que, como que por coincidência, se encontram todos em situações político-financeiras idênticas e enfrentando o nascimento e/ou regeneração de forças partidárias, à esquerda e à direita, até aqui marginais no espectro do poder, mas que poderão colar-se ao fenómeno de dizer NÃO.


Enquanto os nossos vizinhos ibéricos se veem a braços com as investidas do novel partido Podemos, que já lidera as sondagens e prenuncia a mudança, um pouco por toda a Europa se reage contra este sistema de oligarcas poderosos, que fazendo uso de um discurso inconsequente, por demais falso e em muitos casos criminalizável, manipulam os seus eleitores em defesa de políticas centralistas traçadas em Berlim.


Isto já não vai lá com “papões” intimidatórios e todos sabemos que chegou a hora dos nossos políticos o entenderem como tal.


Os gregos escolheram a incerteza e a esperança de David, menosprezando a certeza do desemprego, da pobreza, das assimetrias sociais em crescendo, da alocação da riqueza a um número cada vez menor de pseudoeleitos, … virando as costas ao Golias germânico e aos seus apaniguados europeus.


Se nem chega a ser surpresa, pergunto-me: se todos sabíamos que isto correria mal, porque não arrepiámos caminho, alterando o sistema, substituindo uma gestão político-financeira ultra liberal e autista, por um modelo mais consentâneo com um sistema social responsável e equilibrado?


Porque teimam os governos, governantes e demais responsáveis políticos numa linguagem hermética onde ninguém se revê, numa governação palaciana injustificada (e por vezes injustificável) e insistindo em atitudes de aparente impunidade face à legislação vigente?


Passadas algumas horas, e ainda “a quente”, já se ouviram vozes de altos dirigentes europeus a abrandar a tensão no garrote grego.
Ainda irão a tempo?...

Terra-Chã, 26 de janeiro de 2015 
Paulo Vilela Raimundo

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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