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A Serra do Cume

Quarta, 04 de Fevereiro de 2015 792 visualizações Partilhar

A 18 de Setembro de 2014, com a intenção de informar o público local sobre os achados da Serra do Cume, proferi uma palestra na Biblioteca Pública de Angra, no formato de uma descrição geral do projecto, com apresentação em PowerPoint. Na altura alguns presentes contestaram-me por não mostrar intenção de conseguir explicação sobre a natureza destes achados, e nem mesmo desenvolver um verdadeiro esforço nesse sentido. Disse que, um pouco por todo o mundo, estavam a aparecer vestígios deste tipo e que ninguém ainda conseguira encontrar o método adequado ao seu estudo. E embora tivesse referido ser essa também a opinião de grandes arqueólogos, as contestações subiram de tom.

Retomo então aqui esse momento para aclarar as razões, recorrendo à opinião do especialista francês André Leroi-Gourhan (1911-1986), o qual, por ter formação em todas as áreas em questão, se torna insuspeito: antropólogo, arqueólogo, paleontólogo e paleoantropólogo. No seu livro “As Religiões da Pré-História” (Edições 70, 2007), descrevendo os problemas deste tipo de investigação afirma que “A principal diferença entre as fontes do pré-historiador e as fontes do historiador é o facto do primeiro destruir o seu documento ao escavá-lo” (p.27), referindo que a informação detalhada sobre posição, orientação do objecto, etc., nunca é total, perdendo-se assim o acesso ao sentido que este teria (particularmente quando se trata do religioso). Devido a essa falha, a sua opinião sobre o método da escavação é clara: “Por muito que nos custe reconhecê-lo, podemos considerar que a ciência pré-histórica, mais que centenária, ainda permanece na infância. A nível das escavações, amadureceu naqueles domínios em que a observação era fácil, restando-lhe ainda praticamente tudo a aprender nos outros.” (p.28). Como a antiguidade do objecto de estudo o torna cada vez mais difícil de ser documentado, afirma que “O que salva em certa medida o Paleolítico superior é a existência de milhares de documentos de arte, que podem ser tratados estatisticamente, revelando a sua organização de conjunto” (p.28), de onde se deduz que, por serem tão antigos, jamais haveria acesso ao seu sentido de outro modo.

Foi esta descrença no papel que a arqueologia tradicional tem desempenhado nestes casos de vestígios muito antigos, (possivelmente) anteriores ao Neolítico, que me fez optar por outras formas de investigar e documentar os achados aqui em questão. Veja-se a exemplo os relatórios que diferentes grupos de arqueólogos produziram quando (a convite das autoridades locais), visitaram a Ilha e se pronunciaram sobre a Grota do Medo e outros achados. A possibilidade de não estarem capacitados para apreender a realidade do que se lhes deparou poderá dever-se a uma “cegueira” específica, uma visão demasiado especializada, que ainda aumenta as dificuldades referidas por Leroi-Gourhan.

No caso presente, comprova-se que a Antropologia do Espaço, associada à perspectiva fenomenológica, demonstrou a competência necessária, oferecendo um reforço à Arqueologia (conforme recordam Bender e Tilley). Isto no entanto não impede que se continue indefinidamente à espera do outro “veredicto”.

Colunista:

Antonieta Costa