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“Quem julgam eles ser?” “Quem julga ele que é?”

Segunda, 09 de Fevereiro de 2015 844 visualizações Partilhar

… em pleno século XXI, e embora inseridos numa democracia algo jovem, é deste modo que, amiúdes vezes, nos vemos caracterizados, pelos poucos que se julgam mundividentes e insubstituíveis.

Passado mais de um século sobre o fim da monarquia portuguesa e, teoricamente, dos direitos e benefícios determinados em função do “berço”, continuamos ainda hoje a viver numa sociedade estratificada (o que parece normal e inevitável) mas sem pontes de contato entre os respetivos níveis de governação e da própria sociedade (o que me parece contrário à unicidade nacional e perigoso no que diz respeito à representatividade das nossas elites com funções governativas e/ou gestionárias).

A diferentes níveis do nosso quotidiano deparamos com situações em que o fenómeno do “quero, posso e mando” é por demais frequente e transversal, sem que se tenha plena consciência dos efeitos nefastos que essa postura acarreta.

Desde que o homem se habituou a viver em sociedade que os lideres existem, desempenhando múltiplas funções, fundamentadas num papel de capacidade, competência e representatividade, que conferem ao mandatado a obrigação de ouvir, informar e decidir.

É por demais frequente que esses gestores,  após a tomada de posse na função, se esqueçam (mesmo nas alegadas democracias) do papel a desempenhar,   “divorciando-se” dos seus representados e partirem para uma estratégia de decisões pessoais, justificadas pelo mandato que lhes foi conferido e sem que por estas sintam a necessidade de dar justificações.

Acontece que os mandatos vêm sendo atribuídos na sequência de compromissos prévios (eleitorais ou outros) que nem sempre (...e infelizmente, raramente!) são cumpridos, deixando os eleitos na posse de uma verdadeira “carta em branco” para fazerem o que bem entendam.

A preservação deste sistema só é possível enquanto a sociedade, constituída por um conjunto finito de indivíduos, se mantiver apática quanto ao seu futuro e submissa perante esses alegados “altos funcionários do Estado”.

Não quero com isto dizer que todos teremos as mesmas capacidades e conhecimentos para, de um modo horizontal e na “praça pública”, discutirmos todas as matérias, entendermos todas as nuances e decidirmos  corporativamente todas atitudes e medidas que o dia a dia nos exige. Mas, considero que nos deverá incomodar o estatuto de menoridade que diariamente nos é imposto, sem que tal provoque reações de maior.

O objetivo deste texto é tão só provocar, em cada um dos hipotéticos leitores, uma sensação de “dejá vu” recorrente e (desejavelmente) incómoda, ao ponto de nos alertar para a necessidade de diariamente, nos empenharmos em defender o nosso direito individual e inalienável de opinião pessoal e o dever de informação, justificação e cumprimento de compromissos prévios que, os por nós eleitos, devem garantir a todo o tempo.

Basta de decisões palacianas e não justificadas, que tomadas a partir de inacessíveis salões virão a condicionar, e por vezes prejudicar, o futuro da maioria.

Será de bom senso para todos os intervenientes (leia-se eleitos e eleitores ou, governantes e governados) que as decisões sejam tomadas por quem se encontra habilitado para tal, como fruto da sua formação, conhecimento e mandato público; e aceites e entendidas pelos que neles devem confiar, reconhecendo-lhes as necessárias credibilidade e confiança que caracterizam as nações socialmente coesas.

Se nem ao recusar um gelado aos nossos filhos estamos isentos de justificar o motivo da decisão, como é que diariamente consentimos em que se tomem medidas que nos afetam (individual e familiarmente) sem que façamos nada para sermos esclarecidos.

A culpa é só nossa, pois tudo isto se passa perante a passividade e permissividade de todos nós, auto convencendo-nos de que outros nos substituirão na defesa dos nossos interesses.

Será que temos a consciência do nosso papel na sociedade atual e assumimos conscientemente as nossas obrigações de cidadania?

Talvez seja condição “sine qua non” respeitarmo-nos primeiro a nós próprios, para que os outros o façam!

 

 

Angra do Heroísmo, 9 de fevereiro de 2015

 

Paulo Vilela Raimundo

 

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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