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O que se entende, sem se perceber bem

Terça, 10 de Fevereiro de 2015 973 visualizações Partilhar

Só porque não há tempo preenchido pelas coisas que não são capazes de preencher o vazio que só pode ser ocupado pela reflexão e pela escrita. Por isso, dedico-me a fazer isto: escrever. O meu tempo é reduzido bastante. A minha profissão não é pensar. Muito menos, fazer do pensamento o método escolhido para ganhar dinheiro. Só porque existem coisas inexplicáveis e que precisam ser explicadas para continuarem a não ser percebidas. Como os sentimentos. As vidas. Os estados de espírito. Os desejos. Os sonhos.

Os sentimentos suportam-se por não serem mais do que sentidos. Por não serem mais do que emoções sem reflexos corporais. Por não serem mais do que sentimentos, onde o principal visado é sempre o coração. Sofrido seja o coração que temos, por sentir e por manter vivo um corpo. Duas tarefas impossíveis para um só elemento. Para uma só individualidade. Os sentimentos matam-se por se confundirem. Na reflexão, por via de crónica ou texto, o sentimento ou a emoção não são merecedores de um protagonismo maior. O cronista escreve para e sobre factos. Não sobre emoções. Por isso, os nossos leitores criticam o cronista, a crítica do cronista, os protagonistas da crítica do cronista e tudo o que se relaciona com o jornal da crónica daquele cronista.

As vidas não ocupam espaço, nos entendimentos individuais de cada um de nós. Cada vez mais importa pensar sobre a nossa vida e mesmo isso, já nos tira o sono. A complexidade de uma vida torna longínquo bastante um pensamento coletivo de explicação das vidas. As vidas valem pela vida e não pelo plural de vida. A minha interessa-me, a dele interessa-lhe. Preocupa-me a falta de pluralismo na vida.

Os desejos precisam de ser calmos. Nada que seja desejado e esperado, e seja bom bastante depois de experimentado. Se o uso, em virtude do desejo, for intenso no momento, para além daquele momento não há nada, a não ser recordação perdida no tempo. Por curtos momentos, pouca intensidade. O desejo repete-se. Não acaba. Não há fim. Um desejo satisfaz-se por não ter de ser desejo eterno. Por não ficar sempre em nós. Por ser trocado por outro ou por outros.

O sonho nunca comanda a vida. Se comandasse, vivíamos dentro de um conto de fadas, que tinha tudo de belo e nada de real. O sonho sonhado é o contrário da realidade. É o encontro com a sua inexistência. O sonho pensado, que é realizável, norteia um objetivo de vida, nunca a vida. Aqueles que vivem dos sonhos, morrem sem nada porque nunca souberam ser seres reais. Eu tinha um sonho e cumpri-o. Sabem porquê? Não era sonho nenhum, era-me destinado aquilo. Não há sonhos concretizados. Não há sonhos realizáveis. Há felicidades que nos são impostas pelo destino. Nada mais do que isso.

Sentimentos, desejos, sonhos e vidas são coisas que entendemos, sem as percebermos bem.

 

Colunista:

Emanuel Areias

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