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Vantagens desperdiçadas - O Solstício de Verão

Sexta, 13 de Fevereiro de 2015 1043 visualizações Partilhar

Uma das vantagens que a Ilha Terceira tem sistematicamente desaproveitado como atractivo turístico é a divulgação da celebração do Solstício de Verão, ainda realizado à boa maneira do Norte Europeu, embora embebido e assimilado na designação de “Festas da Cidade”. O facto de realizar essas Festas e de promove-las como Festas da Cidade, deslocando-lhe o foco que deveria ser o da celebração do “Solstício”, porém, retira-lhes o carisma que poderia contribuir para o lançar como grande cartaz. Autenticidade não lhe falta, mas a ausência desse enquadramento é suficiente para vulgarizar o acontecimento em simples “Festas da Cidade” (que qualquer cidade tem) diminuindo o carácter histórico/mitológico a que tem direito e do qual poderia retirar outros dividendos, até mesmo o de uma classificação pela UNESCO, já que quem o promove é uma cidade com esse galardão. Mas em alternativa, preferiu entregar a tarefa a Comissões que nem sempre respeitam as características nucleares da data.

Na realidade, Angra poderia ufanar-se de ser uma das poucas cidades Europeias a preservar essa tradição, cujas componentes principais ainda se mantém genuinamente fiéis às mitologias da data, tão bem conhecidas das populações bálticas, actualmente seu nicho de mercado turístico por excelência (embora o costume se espalhe para o sul, também com grandes celebrações). Note-se como exemplo:

- o papel da Rainha continuar a ser entendido (inconscientemente) como uma representante directa do “Espírito da Vegetação”;

- o entusiasmo pelas marchas que, nas cerimónias originais são grupos que dançam e rodopiam na cerimónia da sacralização do espaço urbano, realizada pela Rainha, trazendo consigo o elemento sagrado (a vegetação);

- as ofertas (cortejo de oferendas), representantes das dádivas que recebia em troca, no acto da bênção, e que constavam muitas vezes de produtos alimentares (embora não só), que passavam então a fazer parte do seu cortejo, sendo depois comidos numa refeição colectiva;

- a ligação do Touro a este ritual, através de várias modalidades de lide, cuja ênfase coloca de novo a questão do seu passado remoto. Recorda-se que por toda a Europa, no fim das colheitas dos cereais, cuja protecção era entendida como estando dependente dele (o touro era tido como representante de Silvanus ou Dionísio, o deus da vegetação, de quem era o representante objectivado). Assim, o touro (ou o bezerro) devia ser enfeitado de flores e fitas, passeado à volta do campo e depois morto ritualmente e comido ‘em comunhão’, ou em grupo, formado pelos intervenientes no processo, numa refeição a que se chamava o ‘jantar das ceifas’;

- o desporto, ou provas de destreza física, que permanecem integrados nas Sanjoaninas, embora já não tenham como finalidade eleger o ‘Rei’ da Festa, parceiro nupcial da Rainha.

- celebrações com fogo (fogueiras e/ou iluminações), próprio dos Solstícios, quer de Verão quer de Inverno, por se entender que o Sol perdia força, na altura da sua ‘mudança de rota’, pelos Solstícios. Assim, a libertação do calor deveria ser endereçada ao Sol, para restauro das suas energias, ameaçadas.

 

Este é um conjunto de tradições que poderá render a Angra muitos mais lucros, se melhor gerido, divulgado e vendido.

08/02/2015

Antonieta Costa

 

Colunista:

Antonieta Costa