Existem frases que ao cruzarem o nosso caminho reacendem vontades de justas por nobres princípios, redescobrindo culpas epidérmicas por múltiplas e continuadas cedências individuais, cobardemente justificadas com a “maturidade” e “responsabilidade” a que a vida nos obriga.
O “saque” do título que agora nos aproxima, foi perpetrado na exposição “O Tempo e o Modo”, que esteve presente no Hospital (psiquiátrico) Júlio de Matos, compondo uma instalação (“O Milagre Existe, Ele É Provisório. ”) do artista Hugo Canoilas.
Algo nele me arrastou para o período em que vivemos, onde a incerteza alastra pelo mundo ocidentalizado e a sensação de que poderá não existir “…fim do túnel” invade toda a Europa.
Nas últimas semanas, dias e horas… vimos assistindo intensa e expectantemente à fuga para a frente (romântica, dirão alguns…) do omnipresente caso grego, onde o desemprego, a fome e o desespero generalizado foram trocados por um sonho provavelmente utópico e idealisticamente arriscado.
Poderemos teimar, a partir do conforto morno do nosso sofá, que o atual governo grego foi eleito por irresponsáveis radicalmente diferentes de nós… mas nunca poderemos esquecer que as grandes ruturas da história foram sempre medrar em regimes socialmente injustos, onde a pobreza alastrava e a esperança no futuro era nula.
Contrariando os princípios basilares da União Europeia, esboçada a seis no já longínquo ano de 1957, deparamo-nos hoje com uma comunidade europeia com vinte e oito estados membros, onde o nobre objetivo original da hegemonia económica e social deu lugar a uma europa dos ricos (a norte) e uma europa dos pobres (a sul), forçando gregos, portugueses, espanhóis, irlandeses, italianos e(… porque não?) franceses a debaterem-se com as dívidas do investimento que foram fazendo nas últimas três décadas, com vista a reduzir as assimetrias económicas (seguindo uma política europeia que, curiosamente, favoreceu os, já então, mais ricos!).
A negação dessa responsabilidade partilhada e a opção imposta pelos mercados de recapitalizar a banca internacional, em prejuízo das populações e dos países do sul, tornou-se num rastilho altamente inflamável que poderá levar-nos ao fim da Europa dos 28 e a início de uma caminhada longa e pejada de escolhos para todos.
Longe vão os tempos das míticas ideologias políticas que dividiam sociedades e nações, para se dar lugar a mecanismos de governação puramente economicistas, impondo uma austeridade draconiana que vem destruindo o(s) estado(s) social(ais) da Europa e intensificando assustadoramente as assimetrias económicas e sociais entre as nações que a compõem.
Em fase de negociação obrigatória entre a Grécia e os demais países que compõem a U.E. propicia-se o momento (único talvez?) para repensar o futuro, quiçá substituindo o lema da austeridade por o da solidariedade social, dando sinais claros que o “sonho” de 1957 poderá concretizar-se numa Europa realmente solidária, responsável e interessada na real unidade de iguais/europeus.
Reparem que não defendo a satisfação plena do que alguns apelidam de “chantagem” grega, que vem forçando os atuais parceiros a negociar, recorrendo inteligente (ou arriscadamente) a um “jogo” em tabuleiros vários (Rússia, Chinam EUA, …), mas tão só um repensar o que queremos para os vindouros.
E que tal se, por um momento, deixassem de pensar nos dividendos dos mercados e se preocupassem um pouco com os mais de quinhentos milhões de cidadãos europeus?
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