Não sei se pelas agulhas, ou pelo aparentemente inestético aspeto final, a verdade é que não sou fã de tatuagens.
Não posso porém ignorar certos gestos mediáticos, de figuras públicas que socialmente e financeiramente gravitam nos “Olimpos” da atualidade, que associando-se a causas banalmente terrenas provocam um verdadeiro furor mediático, divulgando globalmente a causa a defender.
Nos últimos dias assistimos a um exemplo desse fenómeno de mediatização dos atos de um dos “deuses” desta tão particular sociedade onde vivemos, através da demonstração de solidariedade por parte de Zlatan Ibrahimović (jogador de futebol do PSG - Paris Saint Germain) para com o Programa Alimentar Mundial, na luta contra a fome.
Este simples ato de desnudar o torso repleto de nomes (temporariamente) tatuados, associando-os individualmente a casos reais de fome que se encontram disseminados por todo o globo, foi mais eficaz na responsabilização planetária do que muitas ações e campanhas que laboriosamente se vêm desenvolvendo em áreas territoriais e setores da nossa sociedade (felizmente) consciente do problema.
O altruísmo mediático de Ibrahimović, que curiosamente mereceu um cartão amarelo ao infringir as regras do jogo, arrastou-nos a todos (do conforto do nosso sofá) para uma realidade presente onde, segundo os dados das Nações Unidas, cerca de 805 milhões de pessoas passam fome em todo o mundo.
Só este ano, e de acordo com as previsões do Programa Alimentar Mundial, serão fornecidas cerca de 17 mil milhões de refeições diárias a 78 milhões de pessoas de 76 países.
A dura realidade é que, numa população mundial de sete mil milhões de habitantes, mais de um décimo (11,5%) passa fome.
Este fenómeno resulta do facto de, atualmente e como resultado de uma lógica exageradamente materialista e individualista, metade da riqueza do planeta se encontra em posse de apenas 1% dos seus atuais habitantes.
Esta assimetria na distribuição da riqueza, que se verifica geográfica e socialmente sob os nossos olhos, está indelevelmente associada aos focos de tensão e de conflitos abertos que grassam no mundo.
A ânsia de ter (poder, dinheiro, influência,…) tem feito com que, para que poucos os consigam, muitos mais vão perdendo o que de mais básico lhes é devido: o seu direito à vida.
Até onde é que, num planeta com uma população nunca vista e em contínuo crescimento, teimaremos em manter este caminho da luta pelo poder material, menosprezando as questões sociais?
Serei só eu que vou sentindo este crescendo de tensões setoriais na sociedade atual que, como indiciam os focos de conflitos disseminados por todo o lado, nos arrastarão inevitavelmente para algo muito negro, para o qual poderemos não estar preparados?
Quando é que a lucidez (será que têm?) dos atuais estadistas (será que existem?) identifica o erro que nos empurra para o abismo e altera o rumo da História?
Terra-Chã, 22 de fevereiro de 2015
Paulo Vilela Raimundo
Colunista: