Os portugueses sempre se habituaram a admirar embevecidamente o património dos ricos e poderosos, cantando ossanas na praça pública pelo privilégio de o visualizar e branqueando (por esquecimento ou por pudor) as verdadeiras origens deste e/ou os custos devidos a esse “magnânimo brinde”.
Desde os descobrimentos que, oriundos dos quatro cantos do mundo, nos foram presenteando com seres nunca vistos, animais exóticos, produtos nunca até então sonhados…, como fator justificativo do que fomos fazendo pelo mundo (saques, escravatura, ocupações territoriais, etc.), que ao desembarcarem no Terreiro do Paço, provavam à plebe o poder do Império e a força dos nossos conquistadores.
Socialmente, também é comum desresponsabilizarmos os poderosos, pelo simples facto de deles termos medo e usando como desculpa o chavão de que “nada de mal lhes acontecerá”, face ao poder económico-financeiro de que usufruem e aos poderosos amigos com quem convivem.
Todo este arrazoado de razões surge na sequência da publicitação da intenção da Assembleia Municipal do Porto em atribuir a medalha municipal de mérito, Grau Ouro, a Sindika Dokolo, natural do Congo (Kinshasa) e colecionador de arte.
Este ilustre desconhecido é, tão somente, casado com Isabel dos Santos, filha do presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, detentor de uma das mais relevantes coleções de arte africana contemporânea e que disponibilizará para visualização ao público nacional, a partir de hoje (5 de março), parte desse seu espólio (80 peças da autoria de 50 artistas) sob o título You love me, you love me not, na Galeria Municipal Almeida Garrett, no Porto.
Esta mostra, que “rouba” o nome a uma obra da artista queniana Wangechi Mutu (n. 1972) também presente, conta como curadores com a angolana Suzana Sousa e o português Bruno Leitão, disponibilizará uma seleção de trabalhos e de artistas que estão representados entre as mais de três mil peças que integram a Coleção Sindika Dokolo.
A insinuante dúvida que me levou a refletir sobre este caso não se centra na proveniência dos proventos que permitiram a constituição da dita coleção de dimensão continental, nem na magnanimidade do seu proprietário na cedência das peças e na ponderação de eventual depósito num núcleo constituído para o efeito e a sediar na cidade do Porto.
A minha dúvida, e aparentemente a de 5 dos vereadores municipais da “capital nortenha” , reside na motivação geradora da homenagem que a cidade deliberou fazer a Sindika Dokolo.
Tratando-se, à data, de alguém que empresta parte do que é seu para uma exposição de arte, parece-me pouco.
Se pelo contrário, se trata de um “pagamento/reconhecimento” antecipado pelo eventual e futuro depósito nuclear no Porto parece-me indecoroso e injusto para anteriores (e merecedores) homenageados no mesmo grau.
Como que premonitóriamente, o título escolhido para a exposição (You love me, you love me not) já contém no seu interior o indício do desencontro e da discordância… revelando, segundo as vozes abalizadas, um conjunto de peças de inegável valor cultural, que superiormente caracterizam a arte contemporânea africana.
Não estando em causa o valor da mostra, que eu próprio tentarei ver, questiono-me pessoalmente quanto ao que será necessário para por fim às práticas (antigas e continuadas) de atribuição de honrarias e prebendas honoríficas a quem, simplesmente, as pode pagar.
Angra do Heroísmo, 5 de março de 2015
Paulo Vilela Raimundo
Colunista: