Os achados que se têm verificado na Ilha Terceira nos últimos anos trazem à discussão pública uma situação de confronto com a sua História (dos Açores) que continua presentemente mal resolvida e que assim continuará, se não lhe forem aplicadas as devidas medidas.
Embora não se possa dizer que os primeiros cronistas se tenham referido às Ilhas dos Açores como já tendo sido habitadas anteriormente ao seu descobrimento por Portugal, a verdade é que também não se pode deduzir o contrário, a partir dos escritos existentes. É fácil verificar que vários cronistas/historiadores, deixaram escapar referências a ocupações anteriores e que o fizeram de modo (aparentemente) dissimulado, pois tal afirmação, por estar em contradição frontal com a “verdade oficial”, não poderia aparecer de outro modo. No entanto, a ambiguidade de toda essa situação, embora de molde a deixar o assunto em “suspenso”, ou não terminado, não o foi! Isto porque essas inconsistências nunca foram seriamente estudadas, quer para definir, particularmente em cada uma, o grau de credibilidade a atribuir-lhe, quer para contribuir para uma noção geral, de conjunto, sobre essa situação dissonante (em relação à “verdade oficial”).
Este aparente desinteresse fez com que toda a discussão sobre tal assunto (mesmo que involuntariamente) assuma um carácter conspirativo, colocando-o num plano fora da história (ou dos procedimentos a ter nestes casos), perdendo-se assim a oportunidade de tal confronto. Aliás, este caso é apenas paradigmático dos muitos que se sabe existirem. Entendendo que no passado possa ter havido alguma razão para tal acto de fuga à verdade, esse tempo passou e agora está-se perante o interesse científico da sua procura. Curiosamente porém, o que se nota ainda é que, em todos estes casos, o investigador assume sempre o papel de conspirador. Tanto na investigação histórica como noutra qualquer, o duvidar da verdade estabelecida é entendido como um acto transgressor.
No caso dos Açores, dada a escassez de informação descomprometida sobre este período da História, principalmente devido às implicações políticas que o tratamento do assunto sempre teve, envolvendo poderes como o da Igreja e dos Reinos directamente afectados, a declaração feita pelo Rei de Portugal, de direito de pose sobre as Ilhas dos Açores, partindo do pressuposto (e por ele afirmado) destas estarem desertas, assume assim um estatuto de “verdade absoluta e oficial” que poderia comprometer seriamente quem pretendesse contradizê-la. Principalmente porque outros poderes da altura olhavam cobiçosamente tais possessões. Mas, pela existência do facto suspeito de os primeiros cronistas serem todos eles (os cinco mais conhecidos) religiosos, frades e padres (desde Frutuoso que escreveu entre 1586 e 1590 até António Cordeiro 1717) e de se saber da concessão que lhes foi outorgada, de toda a educação nas Ilhas, as “verdades” por eles relatadas deveriam estar sempre sob suspeita de cumplicidade, pelo menos com o poder Real. Esse estado de autoridade inquestionável, que se mantem ad eterno pelas épocas seguintes, ultrapassando revoluções políticas e permitindo a sobrevivência de um arbítrio sem bases na realidade, permanece e é culposo. Embora essa situação continue a ser aceite inconscientemente, tal facto não impede porém que, face a novos dados (“achados”) contraditórios, observados no presente, não seja aplicada aos textos da época uma análise mais cuidada, procurando nas entrelinhas a realidade desse tempo – desafio que lanço aos historiadores.
Antonieta Costa 19/03/2015
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