A crua verdade é que assim reza o ditado: “Há males que vêm por bem!”
…e de um modo respeitador pelo ocorrido no passado dia 18 de março, em que mais de duas dezenas de pessoas foram mortas no Museu do Bardo, na capital tunisina, por terroristas do autoproclamado Estado Islâmico, quero desafiar-vos a refletir sobre o fenómeno do turismo e sobre a importância que essa atividade poderá ter para a nossa região Açores.
Considerando-se que a atividade turística se instituiu na antiguidade, desde que os gregos se começaram a deslocar sazonalmente para assistir às olimpíadas e os romanos de posses se deleitavam com o desfrute das águas termais em termas como as de Caracalla, somente em meados do século XIX, e com o crescimento económico exponencial resultante da revolução industrial iniciada no Reino Unido, se globalizou a prática do turismo, tornando-se numa das atividades comerciais de maior atratividade das últimas décadas.
Ocupando o lugar das motivações anteriores, os destinos de praia tornaram-se inequivocamente a vertente mais lucrativa de todas, massificando culturas, descaracterizando regiões e …, quer queiramos, quer não, esgotando um filão que muitos danos colaterais foi acumulando.
Este atentado recente, justapondo-se a outros aspetos nefastos associados à exposição excessiva ao sol, constitui um rude golpe nos destinos de férias em que o fator sol é impositivo e quase que exclusivo, na oferta turística disponível.
Nesse grupo de destinos prováveis e que, porque massificados, se tornam económicos, encontram-se a Tunísia, Argélia, Egito e Marrocos que se defrontam atualmente com os riscos do extremismo islâmico, repelindo na prática milhares de potenciais turistas que procurarão tendencialmente outros destinos de férias.
É pois esse público alvo que estará ao nosso alcance, redirecionando, concertadamente e laboriosamente, uma estratégia que não se cinja à oferta de novo destino, mas que complementarmente ofereça (lucidamente) um novo pacote de produtos que num contexto pacífico e de qualidade, se propicie cultura, natureza, família, hospitalidade natural… enfim, o destino Açores no verdadeiro sentido da palavra.
Dir-me-ão que as férias e a “venda” dos pacotes comercializados pelas bolsas mundiais de agências de viagens se realizam com grande antecedência! Mas, a verdade é que esta conjuntura verificada nos países do Médio Oriente, reforçada pelo desencanto pelo Sol, vieram para ficar.
Encontramo-nos como tal, perante um nicho de mercado que obrigatoriamente ganhará terreno face a outros. Pelo que se torna obrigatório equacionar o regime de complementaridade turística, cultural e de natureza, que num universo insular e/ou arquipelágico, potencie o que temos de qualidade através de redes de interesses partilhados, do usufruto em rede de pequenas e médias empresas (porque não micro empresas familiares...) de vocações distintas e não obrigatoriamente concorrenciais, permitam a “comercialização” da identidade azórica, sem filtros e/ou outros conteúdos ficcionados.
Contrariando o nosso passado recente, onde imperou e impera a total permissividade face a orientações exteriores (NATO, UE, Toika, ...), seremos nós capazes de construir e comercializar um modelo de turismo de PAZ, fortalecendo através dele o tecido económico e social do arquipélago?
Angra do Heroísmo, 25 de março de 2015
Paulo Vilela Raimundo
Colunista: