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“Fronteira”

Quinta, 02 de Abril de 2015 993 visualizações Partilhar

Fronteira”

Os meios “pequenos” têm destas coisas!

Torna-se-nos possível saber da existência de alguém, por várias décadas, para um belo dia tomarmos consciência de quem realmente é.

O passado sábado (29 de março) foi um desses dias, em que tive o privilégio de assistir/participar no lançamento da última edição discográfica (e autobiográfica) de António Bulcão, intitulado expressivamente “Fronteira”, [Auditório do Ramo Grande, Praia da Vitória], onde numa sala cheia de amizades e experiências cúmplices deparei com a síntese de uma vida de procura e confronto com o desconhecido, onde o ser do poeta, irrompendo pelas letras das múltiplas peças, se entrelaça na música, numa simbiose perfeita de paz e de verdade.

Revendo o meu passado de recém-chegado aos Açores e à ilha Terceira, recordo de me cruzar com o “culpado” desta crónica desde meados dos anos oitenta, em que segundo me diz a memória, assisti a um ensaio dos “Toques” (grupo musical que ele integrava).

Posteriormente, fomo-nos cruzando anonimamente pela vida, aquando da sua participação como autarca na Câmara Municipal de Angra do Heroísmo e ao longo dos seus variados escritos/crónicas que, ao longo de já três décadas, nos mantiveram nos papéis de autor (ele) e de leitor (eu).

Julgo nunca termos tido uma conversa. Nem sequer fomos para além de fugazes (e raros) cumprimentos de circunstância.

Tal porém não foi impeditivo de, numa noite de primavera, e partilhado com algumas centenas de eleitos, me ter aberto o seu diário de homem, de pai e de amante da vida, para através das suas letras e da sua voz, me revelar o seu verdadeiro ser.

Surpreendentemente despido de ultrapassadas (porque concluiu desnecessárias) “arrogâncias”, ofertou-nos momentos que em muito extravasaram o banal lançamento de uma qualquer obra discográfica, propiciando-nos verdadeiras partilhas de vida, que superiormente acompanhadas por Mário Laginha (no piano), Luís Bettencourt (nas violas), Sónia Pereira, Sara Miguel e Henrique Bulcão (nas vozes) resumiram uma longa e árdua caminhada, em busca do conhecimento do eu/autor/ouvinte (?).

Ao seu estilo, como que de “Léo Ferré açoriano”, arrastou-nos para uma viagem de afetos e amizades, dúvidas e certezas, desilusões e paixões… para nos demonstrar como é árduo e regenerador o caminho da busca interior.

Concluo “roubando-lhe” um pequeno trecho, que considero caracterizador das suas obras e das suas motivações…

Se vires um pano branco ao passar pela minha alma,

não fujas, tenta ouvir-me, volta a trás,

ouvirás da minha boca, toda a calma,

de quem não se rende mas quer Paz.”

[“Pano Branco”, letra de António Bulcão e música de Mário Laginha].

Não deixem de viver este tributo à vida!

Terra-Chã, 29 de março de 2015

Paulo Vilela Raimundo

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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