Azores Digital

--> Hoje, dia 16 de Novembro de 2018

O elefante branco…

Terça, 07 de Abril de 2015 1114 visualizações Partilhar

Por vezes torna-se necessário o recurso a chavões para se tentar desconstruir as “verdades absolutas” e os populismos  sempre convenientes em certos períodos político-partidários do nosso quotidiano.

Incomodo-vos mais esta vez, para convosco refletir sobre um novo equipamento cultural, o Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, que foi recentemente inaugurado na Ribeira Grande.

O que se sabe é que o Governo Regional dos Açores adquiriu, há menos de uma década,  um enorme complexo industrial edificado (e em ruínas), onde já se verificavam ocorrências nada elogiosas para o local excecional onde se insere e nada seguras para quem habitava em proximidade. O mesmo conjunto edificado que está hoje classificado como “Imóvel de Interesse Público”.

Recorrendo-se da legislação em vigor, foi contratualizada entre o anterior governo açoriano e os gabinetes  do Arqtº João Mendes Ribeiro e do Atelier Menos é Mais ( Arqtª Cristina Guedes e Arqtº Francisco Vieira de Campos) um projeto que, reconvertendo a pré-existência e dotando-a das condições programáticas necessárias ao novo programa de índole cultural, transformou uma chaga urbana da cidade da Ribeira Grande, numa peça arquitetónica de inegável qualidade, conforme atesta o destacado lugar a que chegou, na definição do prémio de arquitetura Mies Van der Rohe - 2015.

Se pensarmos que somente 2 projetos portugueses chegaram à “short-list” de 40 (entre mais de 400 propostas iniciais) que antecederam a atribuição deste galardão, teremos que admitir que um primeiro e enorme passo foi dado, ao reconverter-se um equipamento fabril obsoleto e em ruínas (antiga fábrica de álcool), transformando-o num equipamento de exceção que, desde o início do ano, ficou sinalizado à escala global pela sua justificada qualidade arquitetónica.

Realizado o necessário concurso público para a execução da empreitada de construção do futuro A-CAC, e após inúmeras “tempestades” que a obra foi enfrentando na travessia de grande parte da anterior legislatura e no início desta, eis que chega ao fim  todo um conjunto de reconstrução da pré-existência e construção de componentes assumidamente novas, materializando um conceito que não se enquadra no conhecido e espartilhado conceito de museu, mas dá forma a uma nova “geração” de equipamentos culturais que, dispensando espólios bilionários e vocações rígidas e restritivas, torna possível a fruição do fazer, sentir e conhecer, em áreas tão dispares como  dança, escultura, vídeo-art, teatro, pintura, performance,…

Se nos dermos ao cuidado de conhecer os objetivos prévios que suportaram o programa funcional submetido a concurso, concluiremos que o pretendido engloba a vocação expositiva, a capacidade criacional (permitindo a realização de residências artísticas), a interação com agentes culturais locais, regionais, nacionais… (fruto das condições excecionais de que dispõe e que deverá oferecer a terceiros [leia-se: autarquias, associações culturais, agentes culturais, artistas...]) e, assumidamente como motivação mais ambiciosa, atribuindo-lhe um papel de motor social, turístico e económico para o meio onde se insere, numa reivindicação consciente da centralidade cultural que sempre esteve ao nosso alcance.

Para quem (encapotando a qualidade do conceito, do projeto e do seu produto final) se refugia no custo faraónico da obra, nunca será demais referir que a comparticipação comunitária (de no mínimo 85% do valor contratual global) só esteve ao nosso alcance por se direcionar para um equipamento deste tipo, tornando-se a verba residual, no que concerne ao capital próprio da Região (num máximo de 15%), um valor claramente baixo para solucionar, de um modo que roça o brilhantismo, o problema anteriormente existente que colocava a segunda maior cidade de S. Miguel a conviver com (ou deveria dizer: recear?) uma gigantesca ruína no seu seio, para a qual não existia função que a reabilitasse.

Sabendo-se do princípio universal da ação-reação, têm-se multiplicado nos últimos dias opiniões     setoriais (e partidáriamente identificadas) que, tentando ofuscar a qualidade do projeto e da obra, reagem à recente inauguração do A-CAC (que há muito aguardava por esse dia) acusando os seus promotores de despesismo autista e de insensibilidade social face aos reais problemas da sociedade envolvente...

...e é aqui que a memória recente me cria problemas existenciais e desperta vontades de justas pela cidadania:

Serei só eu que me lembro de uma intenção/promessa da então líder do maior partido da oposição que, na qualidade de presidente da câmara de Ponta Delgada, defendia (e alegadamente chegou a contratualizar) a construção de um museu de arte contemporânea em S. Miguel?

O mesmo que inicialmente seria para edificar junto à marina, para depois ter sido “transplantado” para o parque urbano da cidade, como se de um projeto-tipo de museu se tratasse (recordam a semelhança com o já existente em Espanha?), da autoria do arquiteto brasileiro Óscar Niemeyer.

Provavelmente também se estaria perante a perspetiva de maior afluxo turístico (que hoje temos, pelo menos em S. Miguel..., pela mão das empresas aéreas low-cost) e na expectativa de poder ocorrer nos Açores o já conquistado/confirmado em Bilbau (com o Museu Guggenheim), no Porto (com a Fundação de Serralves), em Lisboa (com o Centro Cultural de Belém),...e com inúmeros equipamentos culturais que, arrastando turistas e integrando as sociedades envolventes, se tornam nos motores económicos e sociais de que por cá tanto necessitamos.

Até entendo as motivações de quem, denegrindo o caminho percorrido, teima em desejar a morte do “nosso elefante branco”. Mas, sendo verdade que o dinheiro despendido era de todos nós, não será mais consciente e responsável zelar pela “sua vida” e potenciar os benefícios que a todos dignificariam?

 

Angra do Heroísmo, 7 de abril de 2015

 

Paulo Vilela Raimundo

 

 

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

Outros Artigos de Paulo Vilela Raimundo

Mais Artigos