Desde o período da antiga Roma que as sociedades se debatem com a definição do conceito e em especial sobre as vantagens e desvantagens de tal matéria.
Ciclicamente, e curiosamente em períodos de precariedade financeira, se repetem falácias, segundo as quais se entende Cultura como “simples álibi despesista para sustentar principescamente um bando de parasita pseudo-intelectuais”.
Segundo Edward B. Tylor, cultura é “ todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade”.
Ainda recentemente [no fórum "O Lugar da Cultura, Modelos e Desafios", que se realizou esta semana, no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa] o ensaísta espanhol Daniel Innerarity, catedrático e investigador da Universidade do País Basco, afirmou que "a cultura é a melhor educação para a cidadania" e que a sociedade contemporânea se confronta com a existência de um “analfabetismo cívico” que deverá ser tomado em linha de conta.
Quem, de entre nós, não ouviu já reclamar contra os gastos faraónicos em matéria de cultura, defendendo que estes são totalmente dispensáveis face a um panorama social onde grassa o desemprego e (já) a fome?
Pois tentemos refletir um pouco sobre o que vai sucedendo na atualidade…
No final de quase uma década de falência generalizada e de empobrecimento de nações inteiras, vem-se assistido a um desinvestimento generalizado na cultura e na educação que extravasa o âmbito regional e nacional e coincidentemente vem-se assistindo a um crescendo de tensões extremistas como as verificadas no mundo islâmico, dando origem a fenómenos de pura barbárie onde se instrumentalizam pessoas, através de alegadas crenças religiosas (Boko Haram, Estado Islâmico/DAESH,...) e/ou ideológicas (conflito Rússia-Ucrânia, …).
Julgo não ser segredo o facto da iliteracia e a aculturação dos povos ser a melhor arma para a arregimentação acrítica e para a manipulação generalizada das massas, que fica comprovado pelo facto, denunciado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) segundo o qual, “mais de doze milhões de crianças do Médio Oriente se encontrarem inibidas de aceder à escola”, sublinhando que “o número de crianças não escolarizadas nas escolas primárias diminui, em alguns casos, para metade”.
Diferentes representantes religiosos (católicos, muçulmanos e judeus) defenderam no já referido fórum que a “cultura é maior antídoto contra fanatismos”, sendo afirmado pelo xeque David Munir, numa tentativa de reflexão sobre o que vem acontecendo, que “o Islão não precisa de reformas, precisa de educação”.
É estratégica a metodologia terrorista do Boko Haram em atacar escolas e universidades, perseguindo-se as comunidades mais cultas sob o mito das minorias religiosas. Tal atitude já foi demonstrada por outros grupos e em demasiados conflitos.
Talvez vá sendo tempo de corrigirmos os nossos parâmetros comportamentais e de interpretação, assumindo claramente que somente através da cultura dos povos e da educação dos indivíduos que os constituem, poderemos ultrapassar a atual crise e contribuir para uma verdadeira reconstrução/reformatação da realidade internacional atual.
Chegou a hora para, rejeitando a leitura do bode expiatório despesista (leia-se cultura), investirmos na valorização do nosso país através da investigação, divulgação e ensino de todas as matérias que justificam a nossa nacionalidade, levando-nos através dela para a caminho do desenvolvimento social harmónico e afirmarmo-nos como exemplo a seguir.
Queremos integrar um “rebanho” ou decidir de motu próprio o nosso futuro coletivo?
Angra do Heroísmo, 16 de abril de 2015
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