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A trilogia do caos

Sexta, 24 de Abril de 2015 804 visualizações Partilhar

Confesso-vos que, diariamente procuro (com obsessiva minúcia) aspetos positivos do nosso quotidiano que, irradiando algo bom e otimista, possam contribuir para a reabilitação do modo como todos olhamos a atualidade e o futuro próximo.

A realidade porém, assume sistematicamente formas de difícil aceitação, em que a sua negação se torna impossível e irresponsável.

Com o prolongamento da crise financeira que grassa no planeta, os sintomas de pânico individual e/ou generalizado são por demais evidentes, forçando-nos a analisar conscientemente o que ainda estará para vir.

Um pouco por todo o lado, e com a visibilidade instantânea que a comunicação social propicia, ocorrem atos avulsos e/ou continuados que nos levariam a pensar que está tudo louco.

Mas a verdade é que o medo e o desespero chegaram para ficar, levando a que a sociedade globalizada se veja obrigada a trocar um sonho romanceado do eldorado ocidental (leia-se Europa e América do Norte) por uma busca insana pelo inimigo mais próximo, mesmo que este se veja forçado a representar tal papel...

Este fenómeno torna-se por demais abrangente e opressivo que, desde a família (elemento nuclear da sociedade atual), aos governos e às inúmeras fações extremistas, pseudo-religiosas e por vezes transnacionais (Estado Islâmico / DAESH, Boko Haram, …), quase que diariamente nos dão conhecimento de atos de pura barbárie para com familiares diretos (mulheres, maridos, filhos, pais,…), vizinhos (por partilharem de religiões distintas) ou por serem diferentes, pura e simplesmente porque é importante encontrar um bode expiatório para o desnorte que avassala o quotidiano.

Este conjunto de atitudes que, em defesa de líderes fracos e sem noção do rumo a tomar, vem colocando o homem contra o seu igual, numa luta fratricida de que todos sairemos a perder, definem um verdadeiro estado de guerra que não devemos e não poderemos ignorar.

Vejam-se os resultados da instabilidade instalada por todo o Magreb, onde as múltiplas convulsões governativas, instigadas por variados interesses mais ou menos obscuros, levaram a que o poder tenha literalmente caído na rua, dando vantagem à instalação territorial de verdadeiros bandos de criminosos que, encapuçados por alegadas crenças religiosas, espalham o terror e a morte.

Não bastando a precariedade e a fome que se vinham sentindo nesses territórios, foi-lhes ainda adicionado o medo.

Em resultado deste, assistimos diariamente a notícias de naufrágios em pleno Mediterrâneo que, dando provas de um verdadeiro êxodo magrebino com destino à Europa, nos confronta com inúmeros mortos por afogamento (que nos últimos três meses e meio já rondarão os cinco milhares).

Mas nem só de grandes conflitos sofre o mundo!

Um pouco por todo o lado, vamos tomando consciência de múltiplos atos de violência indiscriminada, crimes passionais, ações vingativas sobre menores, atos perpetrados por alegados tresloucados inimputáveis,... que provocando a dor e por (demasiadas) vezes a morte, provam claramente que a nossa sociedade está moribunda e que tem forçosamente de mudar de atitude.

Chegou a hora, sob pena de sermos forçados a enfrentar um novo conflito generalizado, de alterar os conceitos basilares dos nossos projetos de vida, substituindo a omnipresente riqueza material por ideias básicas como a da sustentabilidade do planeta e a defesa (e partilha) das reservas naturais disponíveis (água, combustíveis fósseis, alimentos,...).

Lembremo-nos que o planeta nunca foi tão povoado como na atualidade e que o permanente crescimento exponencial e desmedido do consumo não será nunca viável.

Restar-nos-á escolher entre a guetização do globo, entrincheirando as zonas ricas, defendendo-as dos territórios pobres e a abolição da destruição fratricida entre iguais, forçando-se claramente uma gestão coerente e responsável dos parcos recursos disponíveis.

O que faltará, para que numa das muitas reuniões dos “donos disto tudo” (G7, G8, G20, G...) se decida, de uma vez por todas, pela sobrevivência do que ainda somos e conhecemos?

 

Angra do Heroísmo, 22 de abril de 2015

 

Paulo Vilela Raimundo

 

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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