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A derrocada de um sonho

Domingo, 03 de Maio de 2015 941 visualizações Partilhar

Para mim, e para muitos da minha geração, a cidade de Kathmandu ficou colada ao imaginário coletivo, como local mítico no respeitante às vivências multiculturais que lá proliferavam e ao enquadramento arquitetónico construído, que sobejamente justificava a sua classificação pela UNESCO como património da humanidade.

Desde o momento em que li o livro de Charles Duchaussois “Viagem ao Mundo da Droga” que uma viagem ao Nepal se tornou num dos múltiplos e improváveis projetos para a minha vida, que felizmente se veio a concretizar cerca de duas décadas depois.

Só nos finais do milénio anterior, e em passagem entre as realidades hinduísta (Índia) e budista (Tibete),  tive o raro privilégio de desfrutar da região do vale de  Kathmandu (Patan, Bhaktapur, Swayambhunath e Boudhanath) e da, então e agora, cidade - capital do reino.

Alojado no âmago do Thamel, bairro central desta Meca do oriente, convivi em pé de igualdade com  locais e  forasteiros, num permanente misto de surpreendente novidade (face ao inesperado) e permanente resiliência histórico-religiosa (perante quem pouco tem, senão certezas resultantes de um longo passado coletivo e consciente).

Num ambiente mesclado de residentes, turistas, montanhistas e comuns viajantes usufruí de um  sentimento único de pertencer ao lugar, que não meu, convivendo amigável e respeitadoramente com todos com quem me cruzei.

Do vendedor da loja das thangkas (pinturas sobre tecido, maioritariamente alusivas à vida de Buda, utilizadas no ensino e na meditação) que vinha à rua convidar-me a entrar na sua loja para tomar chá; ao condutor de riquexó que por mais uma rupia tudo fazia para chegar primeiro ao destino previamente acordado; tudo fazia sentido num ambiente universalista e respeitador das diferenças de cada um.

Deambular pela cidade, inspirando os sons/cheiros de uma cidade plena de vida, revelou-se com especial deleite um exercício que me marcou definitivamente, demonstrando-me que a diversidade cultural, religiosa e/ou de origem não constitui, por si só, um aspeto impeditivo de um saudável relacionamento em sociedade.

Em pleno Thamel (centro histórico-cultural da cidade), onde edifícios seculares classificados conviviam com uma omnipresente rede wireless gratuita de Internet, o encontro fortuito com um junkie do ocidente, saído do seu refúgio/albergue em busca da sua dose do dia, no caminho da Pilgrims Book House (verdadeiro tesouro livreiro planetário) onde encontraríamos o(s) livro(s) que há muito procurávamos em vão ou que sintetizava(m) a aventura por nós iniciada, culminaria correntemente com um pepper steak de búfalo, num qualquer restaurante/bar de montanhistas e aventureiros vários.

Em pleno regime monárquico em convulsão (pouco antes terá ocorrido um golpe de estado palaciano, que através do extermínio da família real em funções, redirecionou o regime para uma monarquia conservadora e tendencialmente absolutista), presenciei manifestações pró-maoistas e o desconforto de alguns setores da sociedade nepalesa que, numa postura estranhamente complacente e respeitadora (para nós ocidentais), usufruíam da certeza e confiança no devir.

Deparo-me hoje com uma realidade que me roubou esse marco de vida, essa bandeira no saber estar  e pensar.

O sismo e as réplicas subsequentes que ocorreram nos últimos dias destruíram grande parte desse edificado insubstituível, modificando indelevelmente todo um passado antigo e recente, bem como o quotidiano de um vasto leque da população da região.

À escala temporal do homem não é comum assistir-se a uma transição brusca entre o conhecido e o vazio. ...e para muitos dos cidadãos nepaleses o estado de espírito atual deverá ser de pleno e omnipresente vazio!

Independentemente da nossa idade, sempre se mostrará estranho e algo inexplicável o falar-se de um lugar que já não existe!...

Perdido um passado consolidado e enfrentando a inexistência de um futuro imediato, para onde caminharão todos aqueles que nos saudavam regularmente com um gentil namaste?

Como poderá a sociedade ocidental auxiliar a reconstruir, mais do que um conjunto edificado de valor patrimonial único, mas tão só, o modo de vida de milhões de nepaleses?

 

Terra-Chã, 1 de maio de 2015

Paulo Vilela Raimundo

 

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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