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O rebanho

Segunda, 18 de Maio de 2015 869 visualizações Partilhar

A verdade é que também sou pai!

e, tal como a esmagadora maioria do género, desejo o melhor dos futuros para os meus.

Nesta aldeia global com mais de sete biliões de habitantes, distribuídos por quase duas centenas de países, temos vindo a assistir a um crescimento exponencial dos que por cá tentam sobreviver, que de um primeiro bilião de habitantes existente no início do século XIX, passaremos no final do século XXI (se nada de catastrófico ocorrer) aos onze biliões de almas.

Este extraordinário crescimento coloca-nos num cenário único, em que a melhoria das condições de vida das populações (direitos humanos, educação, saúde, emprego, esperança média de vida,…) “batem de frente” com os sistemas governativos, sejam eles representativos de regimes ditatoriais ou de alegadamente democráticos.

Mesmos nos países ditos democráticos, assistimos a permanentes conflitos entre populações numerosas, aglomeradas em metrópoles anónimas, que dotadas de uma educação/formação nunca até agora existente, se debatem entre os sonhos expectáveis e a realidade político-administrativa vigente.

Em resultado deste generalizado “braço de ferro” assistimos a uma persistência dos regimes no formatar e condicionar as atitudes das massas, moldando-as a um modelo comportamental artificialmente introduzido que, desde o berço as acompanhará até à cova.

Se repararmos no que acontece à nossa volta, concluiremos que por via dos musculados mecanismos sociais (meio escolar, comunicação social, atividades de lazer, …) se vão uniformizando gostos, curiosidades e práticas, deixando excluídos todos aqueles que teimem a agir/pensar diferente.

Da escola ao emprego, da associação ao partido, quem for considerado “fora de formato” ver-se-á cerceado nos seus direitos e ambições, em favor dos que demonstram enquadrar-se no figurino e, acima de tudo, omitir os seus gostos e opiniões.

Os recorrentes casos de bullying em ambiente escolar, não sendo um fenómeno novo, caracterizam perfeitamente este estigma de ser um outsider da tribo, seja ela qual for.

Muitos de nós fomos condicionados a pensar que a educação dos nossos descendentes lhes traria, como que por milagre, um passaporte para uma carreira profissional de sucesso, com direito a uma família estruturada e à (garantida) felicidade/realização pessoal.

Afinal, fomos todos enganados!

A realidade mais uma vez traiu-nos, demonstrando-nos que neste mundo eternamente novo, porque diferente do de ontem e em mutação constante, pouco ou nada se pode tomar como direito adquirido.

A explosão numérica das populações, reforçada pela exaustão dos recursos naturais do globo, empurra-nos perigosamente para uma alucinante viagem ficcionada, onde se constroem miragens de oásis (sistemas capitalistas, de vocação ultraliberal e apologistas das falaciosas vantagens dos mercados…), para onde há que conduzir os povos, como se rebanhos (isentos de vontade) se tratassem.

As roupagens dos detentores do poder vieram evoluindo através dos tempos, desde as lideranças tribais, passando das monarquias absolutas, às religiões/igrejas omnipresentes e detentoras de poderes absolutos, culminando hoje em modas e tendências massificadoras, que dando acesso direto a uma dormência social aparentemente integrativa, rejeita radicalmente todos os que, por destino ou opção pessoal, não se enquadram no padrão pré-definido.

Não bastarão os episódicos apelos à participação cívica, associativa e política, (curiosamente replicados em períodos pré-eleitorais…) para que os nossos jovens se sintam integrados numa sociedade que não se entende a si própria e que é, claramente, deficitária de tudo o que diga respeito a cidadania e democracia.

Urge introduzir no nosso quotidiano o interesse no debate de ideias, para que todos nós, e sem exceção, usufruindo das capacidades próprias de cada um, nos sintamos a participar na construção/escolha de um futuro coletivo que nos honre e devolva a crença do futuro.

Se todos abdicarmos da nossa individualidade e teimarmos em integrar o “rebanho”, poderemos confiar no “pastor”?

Terra-Chã, 17 de maio de 2015

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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