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Incongruências

Quinta, 04 de Junho de 2015 846 visualizações Partilhar

Bem dizia a Ivone Silva e o Camilo de Oliveira...

“…

Este país perdeu o tino,

a armar ao fino,

a armar ao fino!

Este país é um colosso.

Está tudo grosso.

Está tudo grosso!

Anda tudo a fazer pouco,

...da gente.

Anda tudo a fazer pouco,

...da gente.”

Enquanto se entrincheiram os partidos e se degladiam os candidatos a governantes, numa discussão pífia de como remendar o(s) orçamento(s), obedecendo a uma lógica neoliberal alegadamente imposta pela Troika, e recorrendo-se (por coincidência…) às reformas de quem trabalhou e aos (sempre úteis) vencimentos do funcionalismo público, acordei pela manhã com mais uma rocambolesca notícia lusa, que bem ilustra a nossa realidade “à beira mar plantada”:

Contrapondo os largos milhares de portugueses que vivem no limiar da pobreza e todos aqueles que depois de uma vida de trabalho têm de sobreviver com pensões de reforma abaixo dos duzentos euros (mensais, não ao minuto!…), ficámos todo a saber que um clube de futebol nacional (que também é subvencionado pelo Estado Português) acaba de contratar um treinador para a sua equipa principal de futebol de onze, pela módica quantia de seis milhões de euros por ano!!!

Convenhamos que é obra! Quinhentos mil euros por mês; quase dezasseis mil e quinhentos euros por dia...

Nada tenho contra o senhor recém-contratado, e nem sequer sou amante do tão falado “desporto rei”, mas parece-me surpreendente que num sistema em que a maioria dos governantes, e a classe política em geral, é de duvidosa qualidade, por alegadamente não ser suficientemente remunerada para as responsabilidades e o conhecimento específico necessário às funções que tem de desempenhar, possamos usufruir de treinadores de futebol pagos a preço de ouro.

Sempre me surpreendeu o facto de se criticar o administrador/gestor/político pelos “faraónicos proventos” inerentes à sua função, com a mesma boca que se sentencia inevitáveis e normais os vencimentos de alguns atores desportivos.

Muitos me responderão que o futebol é um desporto que se sobrepõe ao interesse nacional, enquanto outros, sabiamente, me dirão que se trata apenas do “ópio do povo”…

Pois bem! Caros senhores governantes e inúmeros concidadãos amantes do “desporto-rei”:

Considero que basta de subsidiar, com o dinheiro de todos nós, os clubes que faraonicamente assim se comportam.

A liberdade de “estar por cima” nos mercados das contratações, não é compatível com a sustentação deste tiques de novo-riquismo à custa dos que menos têm.

Ponham-se fim aos compadrios entre a classe política e as direções desportivas, mesmo que isso implique, em alguns setores da população, alguma incompreensão clubística.

Haja decência para com aqueles que nada têm e para com aqueles que, após 30 ou 40 anos de trabalho, “não merecem a reforma que usufruem”!

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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