Com ou sem direito a reforma, mais ou menos lúcido, com esta ou aquela maleita, a verdade é que para lá caminho.
Ou, melhor dizendo… todos para lá caminhamos!
São já dois milhões e meio de portugueses, os que se encontram em fase de merecida reforma, após décadas de trabalho por conta própria ou de terceiros.
Nunca até agora, essa população foi tão numerosa e habilitada, nem usufruiu de uma esperança de vida tão alargada como na atualidade.
No entanto, e por motivações autisticamente competitivas, teimamos em rejeitar todo o conhecimento acumulado e toda a inesgotável experiencia de vida dos nossos séniores para, numa ansia suicidária de substituição pelo alegado “sangue novo”, se menosprezar a participação ativa de um quarto da população nacional.
Felizmente existem aqueles que, não se conformando com esta marginalização social, se envolvem em movimentos e projetos de cidadania, a partir dos quais desenvolvem grupos de estudos e promovem debates de reflexão sobre matérias fulcrais do nosso quotidiano, disponibilizando à sociedade envolvente o seu tempo e o seu conhecimento do mundo.
Como prova exemplar da existência dessas elites voluntárias e disponíveis para o exercício da cidadania, que (refletindo sobre o passado, presente e futuro da sua Pólis intemporal) teimam em contribuir para a construção do futuro, ocorreu no passado fim de semana, na cidade de Ponta Delgada, mais um oportuno evento promovido pela dinâmica Associação Sénior de S. Miguel, onde se reuniram para um franco debate de ideias, conhecedores vários de matérias e dossiers do nosso passado recente e gestores do território que por vezes, para gerir os destinos das urbes, carecem de grupos de reflexão que colaborem e participem na escolha da melhor decisão.
Como é sabido, por muito capaz que seja o decisor/gestor do território em exercício, nem sempre dispõe do conhecimento, da disponibilidade de tempo para aprofundar o assunto ou do “golpe de asa” que lhe garanta a melhor decisão.
Em paralelo, a história vem-nos ensinando que os “donos disto tudo” amiúdes vezes revelam ter “pés de barro”, pelo que todos os cuidados serão poucos!
Torna-se pois um exemplo a seguir, e a replicar no nosso universo açoriano, aquilo que vem acontecendo na nossa proximidade insular, de modo a que a tomada de decisões diretamente ligadas ao nosso futuro coletivo se tornem cada vez mais consensuais e fundamentadas, quebrando-se definitivamente vícios suicidários de exclusão social, entrincheiramento político-partidário e de bairrismos fratricidas, que só vêm contribuindo para o enfraquecimento do todo regional e para o alastramento do pessimismo e do desespero.
Não parecendo coerente, nem minimamente consciente, abdicar-se de uma larga franja da sociedade, torna-se pois obrigatória e vital a integração de todos os cidadãos sem exceções, tomando-a como sinal de mudança na reconquista da confiança no devir coletivo.
Do que é que estamos à espera para arrepiar caminho?
Terra-Chã, 8 de junho de 2015
Paulo Vilela Raimundo
Colunista: