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O medo dos exames

Domingo, 14 de Junho de 2015 1009 visualizações Partilhar

Ainda me lembro destes dias de Maio quando as minhas professoras de Português e de História, nos preparavam nos pormenores para os exames de Junho. Ainda pensávamos que não havia de chegar ao dia. Líamos aqueles manuais dos exames nacionais, com total certeza que nada do que estávamos a tentar interiorizar ficaria dentro da cabeça.

Passava pelos corredores da escola, olhava para um lado e para o outro, e só via cadernos e apontamentos, com sublinhados a um verde vivo ou um laranja florescente. Como se o que fosse sublinhado, merecesse ser mais bem estudado ou mais importante aos olhos do conhecimento.

As professoras não haveriam de ter aquela preocupação severa porque no fundo era o nosso futuro que nos devia interessar. Mas estava lá, dentro delas, aquela ânsia de verem os seus meninos vingarem naquilo que era nacional, naquele exame parvo, feito por engravatados ferrugentos, presos a secretárias, dispondo em papel inutilidades. Num gosto por verem vingar o seu trabalho de três anos e para verem os seus meninos a rumarem a uma nova fase, longe delas, mas com elas no conhecimento levado.

Ainda me lembro das noites mal dormidas, os medos e os vários pesadelos. Aquilo de ser uma prova de vida seria um ataque à sanidade de quem iria depender de duas horas e tal, para fazer o seu rumo. Três anos reduzidos a dois dias, a quatro horas. Na noite, estudava-se a vida. O que seríamos dali em diante. O que seríamos na espera de fazer o exame e de receber a nota. E se eu perder? Mas e se eu passar? A minha vida é hoje e eu nem sei o que ela é.

Os dias chegaram. Aquele suor miudinho ia escorrendo o rosto. A caneta estava presa à folha. O exame a ser feito. E ficou. Ali, naquelas folhas, estava a minha passagem para outra fase da vida. Sabia-o e foi de verdade, o início da viagem.

O verão passou a correr. Os exames tinham passado sem eu notar, sem que as dificuldades deles fossem de facto dificuldades. Apenas medos. O medo de não acreditarmos em nós, quando no fundo tínhamos a noção de que tudo seria perfeito. Era uma completa antítese de sentimentos e de crenças.

Depois, estávamos ali. Com uma passagem na mão, a vida nas malas e uma chave de uma nova casa. O até já ao que fomos. O início de tudo.

 

 

Colunista:

Emanuel Areias

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