Da janela da nossa memória coletiva constato que, desde que nos conhecemos como espécie, sempre vivemos de um modo gregário e dependentes do grupo.
Esta característica vem-se fazendo sentir desde que os primeiros hominídeos se organizavam em família, tentando sobreviver num planeta que em tudo lhes era perigoso e claramente fora do seu controle.
Desde então, a raça humana vem crescendo exponencialmente em número e em abrangência territorial, sendo atualmente a espécie que, no âmbito de todas as espécies vivas do globo terrestre, mais influencia o ecossistema e, claramente, mais o agride.
Porém, a necessidade intrínseca de vivência em sociedade vem mantendo e intensificando essa vocação demonstrada como necessária para sobreviver. Será mesmo assim?
Das religiões às raças, dos partidos aos lobbies de interesse, das escolas aos empregos,… a verdade é que ainda hoje insistimos nesse modelo social, deixando de fora todos os que por falta de convicção ou de espírito de liderança/vassalagem se demonstram como “fora de formato”.
Numa época em que generalizadamente se “embandeira em arco” com a afirmação de que nunca existiu uma população global “tão habilitada, tão bem formada, tão consciente, tão…, tão…., tão...” verificamos que mesmos os que se pretendem assumir como indivíduos originais, autosuficientes e independentes… se refugiam em modelos pré-definidos e com códigos, linguagens e atitudes de sub-raça.
Durante todo este processo evolucionista, vem-se esquecendo que todas as moedas têm duas faces e, como seria de esperar, a consolidação de um grupo parcelado do resto da espécie humana vem gerando a coesão interna (quando verdadeira…) e a exclusão dos demais, fracionando a sociedade e propiciando atitudes de “nós contra os nossos”.
Quem não idolatrou os já decanos Yuppies? Que, qual deuses do Olimpo financeiro ocidental, se deliciavam com os proventos das miragens por eles construídas e dos sonhos dos comuns mortais por eles cultivados, na ostentação provocatória de um ficcionado conceito de beleza e de um indestrutível controlo do futuro.
Com o tempo, fomo-nos familiarizando com novos padrões urbanos, que tentando encontrar uma atitude “out of the box” mais não fizeram que recriar modas e atitudes, recorrendo para tal aos sótãos e baús da ancestralidade.
Dessa busca surgiram os Hipters que sob roupagens de lenhador snob (camisas de flanela, barbas a condizer,…) se tentavam demarcar dos restantes pelo uso generalizado dos gadjets da moda (iPhones, iPads, i…) e pelo consumo de comida artesanal gourmet.
Como se não tivéssemos mais nada que fazer do que interiorizar estes códigos e atitudes de identificação desses grupos auto excluídos pelas alegadas e imaginárias diferenças, eis que surgem os Yuccies, sustentados no conceito de Young Urban Creative, como pessoas jovens, urbanas e criativas.
Como que reencarnando os alegados defuntos Yuppies e Hipsters, estes assumem-se como “seus filhos culturais” pretendendo ser bem sucedidos e criativos (o que até me parece bem…) mas socialmente confinados “a pessoas de uma classe económica específica e maioritariamente brancas” (Quartz) e que usufruindo do “...“privilégio” de uma educação superior, não querem só ficar ricos rápido, mas querem ficar ricos rápido enquanto mantêm a sua “autonomia criativa”.
Também desta, a originalidade, a liberdade criativa e o direito de opinião individual estarão subjugados a regras comportamentais e a gostos e preferências incontornáveis...
Mesmo correndo o risco de “queimar as minhas asas”, e em alternativa a uma busca obsessiva da minha tribo, creio que vou rever o filme “Fernão Capelo Gaivota” (1).
Angra do Heroísmo, 18 de junho de 2015
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