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Exames, praia e adubo natural

Sexta, 19 de Junho de 2015 782 visualizações Partilhar

A água está boa, a areia pede ao sol calor, e fica contente por nos queimar os pés. As pessoas vão-se aproximando do areal, com vista ao mergulho rápido, ao descanso à beira mar. Como se a acalmia do oceano, tirasse do stress da vida, apenas a doce essência de se viver são. Nesse jogo de chegadas, entradas na água, saídas ao bar ou aos gelados refrescantes, estão os pobres coitados dos alunos do secundário a estudarem as sínteses e os resumos pomposos para fazerem os ditos exames.

Alguns têm a ousadia, de embarcar na vivência serena de estudarem aos pés do manto azul, lendo Pessoa ou Cesário Verde aos peixes, como se o padre António Vieira, lhes desse corpo. Que não seja perene o meu dizer, mas fica na memória que o Português é comum a todos os alunos, portanto, a sua universalidade merece-me atenção.

O oceano pede férias, porém há quem não as tenha. Uns vão estudando em suas casa ou então em bibliotecas públicas, com o intuito de apreender matérias exageradamente densas em informação, e que não têm utilidade futura de relevância maior. Passa-se os olhos com atenção ao 12º, olhando Pessoa e as suas crias com atenção e até gosto, percebendo as dinâmicas do pai da heteronímia. Já a sua Mensagem, não nutre grande amor no seio juvenil. Mora lá distante o senhor Saramago, que nos invade com a magia da passarola, mas que fica um tanto esquecido por ter saído na primeira fase de 2014. Mais haverá para saber no 12º ano, nem que seja a gramática que se repete e repete, desde o início do Secundário. Com alterações anuais, programadas e feitas por laboratórios de língua. É a morte do Português.

Vai-se ao 11º ano, e já que não baste a tristeza do 12º ano, ainda se pena com Eça de Queirós e o seu puro realismo, pela dicotomia cidade-campo, que nos leva ao paraíso da existência e da amizade pura e verdadeira. Há mais. Muito mais. Aquela morte triste de Maria, pela febre que lhe matou, no Frei Luís de Sousa, que é mais uma obra a saber. E mais. O que há mais em comum em tudo, é o sebastianismo. Pela presença constante que essa nuvem de nevoeiro tem em nós, pelo desconhecimento, o medo e o temor. É a melhor preparação ao aluno a caminho da universidade – uma crença num qualquer ser que nos virá salvar, durante o exame.

O 10º ano já não me lembra bem. Fica pela distância do saber, mas tem de se saber o que lá ficou. Vai-se pela memória, estudar, recordando.

Eu estou na praia. O sol malha-me o corpo com o vermelho escaldante. No ar, um cheiro desgastante, pelo adubo natural que os campos conhecem nos arredores da cidade da Praia. Os exames são um bocadinho como esses adubos imundos.

 

Colunista:

Emanuel Areias

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