Esta fantástica pintura de James C. Christensen é, entre as muitas sobre as “viagens” de S. Brandão, uma das que melhor transmite o aparente irrealismo do seu cometimento. Mas a procura de um caminho espiritual provém de uma longa tradição de origem Caldaica, depois adoptada pelos Egípcios, Gregos e Romanos, assumindo um formato diferente na Irlanda, já durante o princípio do Cristianismo e a partir do qual resultaram inúmeras descrições de viagens fantásticas, viagens que passaram ao Atlântico e muito depois terão originado o modelo de turismo/diversão actual. Mas são estas lendas que, presentemente em mutação, indiciam um regresso à espiritualidade.
A Macaronesia assumiu, ao longo de todo este tempo, o papel de palco de confronto entre o ideal e o imaginário, catalisando e combinando as suas muitas facetas. Será no entanto na Serra do Cume (Ilha Terceira) que este reencontro pode atingir o seu clímax, ao regressar ao âmago do seu sentido: à “sacralidade” entendida como brotando da terra. Coincidirá esse entendimento com o ideal dos monges de S. Brandão? Reencontrarem o ser supremo na pureza e imaterialidade das ilhas?
Neste ponto urge colocar os dados na mesa, apresentando a questão: de que forma contribuíram estas figuras humanóides da Serra do Cume para a consolidação das lendas da Macaronesia? Respostas “científicas” (como alguns ingenuamente ainda esperam encontrar) talvez nunca sejam dadas. Porém, nas mãos de bons agentes de turismo esse passo já estaria ultrapassado, uma vez que a realidade da sua poderosa presença física neste local de paisagem privilegiada, supera quaisquer outras exigências.
Mesmo que (apenas na defesa de um rigor científico aqui desnecessário), se exijam outras provas, as já existentes satisfazem os requisitos turísticos, uma vez que se trata de uma realidade inegável: existem as grandes rochas, as figuras estranhas e as inscrições, quaisquer que sejam as tentativas para a sua explicação. E essa existência supera qualquer resistência.
O que tenho andado a fazer (para dar conhecimento) é o levantamento da área em questão (auxiliada por técnicos do antigo departamento de Obras Públicas, por um desenhador da Câmara Municipal de Angra e por uma firma de arquitectura), material esse que vai ser publicado com a finalidade de fornecer aos estudiosos da matéria a informação necessária sobre esta situação (a utilizar em futuro aprofundamento). Mas os sete conjuntos de “artefactos” situados na Serra do Cume justificam, por si próprios o interesse, pelo que devem ser aproveitados como objecto turístico. Cada um deles pode, devido à sua essência, sustentar a hipótese de lugar de culto, embora o conjunto, devido à força ganha nessa repetição, obtenha uma autoridade impossível de contestar.
É na continuação da divulgação desta realidade que participo no Congresso de Liverpool, a convite do CITCEM, Universidade do Porto, pois a política de incentivo ao usufruto do património cultural (material e imaterial) é entendida como essencial, na actualidade.
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