Mistério, num dicionário da wikipédia, é significado de “causa oculta: um fenómeno que ocorre e não se sabe as causas.”
A Ilha Terceira é, há muito, conhecida como a Ilha dos Mistérios, o que dá a entender que essa prerrogativa terá razões profundas, vindas do passado. Basta olhar, por exemplo, para a designação de “Brasil” que surge em mapas desde o século XIV misteriosamente ligado a uma Ilha (que poderá ter sido a Terceira), para se perceber o rasto da sua dimensão. Mas não obstante a grandeza de tais mistérios do passado, os atuais suplantam todos os demais, a começar pelos “achados” inexplicáveis que se multiplicam a cada passo nesta Ilha, e a culminar no comportamento que, perante eles, o Governo assume.
Observando com mais atenção este comportamento, é-se levado a considerar como “misterioso” (atribuível a causa oculta) devido a vários dos departamentos governamentais terem agido de modo contraditório em relação às suas funções: tanto na vertente cultural e científica, quanto na económica (aqui considerando o turismo e suas inferências). E porque as consequências que tal comportamento pode ter, nomeadamente para o futuro da Região, estão a ser traçadas, coloca-se de novo a questão: Quais poderão ser as “causas ocultas” de tal mistério?
Num aprofundar mais específico, questiona-se mesmo a legalidade de tais procedimentos, quando a contradição está expressa tão claramente? Um exemplo: Porque está o Geoparque da Ilha Terceira tão mal caracterizado? Porque não são incluídos/definidos/realçados elementos como o da Serra do Cume que poderiam transformá-lo numa atracção de grande impacto turístico/económico? (de notar que esta recusa implica uma desconsideração inconveniente dos resultados de estudos orientados pela Universidade do Porto).
Mas mais misterioso e contraditório ainda é o facto de o Secretário do Turismo apelar (no seu discurso de 22 de Julho na Ilha das Flores) a uma diversificação da oferta turística das ilhas (o que, aliás, está expresso na política de desenvolvimento da Região) e simultaneamente fechar os olhos à flagrante “diferença” que a Ilha Terceira oferece (revelada nos meus estudos, que a Direcção Regional no Faial conhece, por carta que há c. três meses aguarda resposta!).
Para que fique esclarecido, esta diferença a que me refiro tem raízes bem mais profundas do que as observáveis, e que se radicam na constituição lítica da Ilha Terceira que, conforme descrito (entre outros, em tese de doutoramento, J.C.Nunes, 2000), difere muito da das outras 8 ilhas, por conter uma percentagem de 60% de traquites (enquanto que nas outras predomina o basalto). Esta diferença está relacionada com os “achados” por ser nas zonas de maior concentração de traquites que os mesmos ocorrem. Se esta “diferença” e o seu complemento geomorfológico não fossem atracção turística suficiente, devido às impressionantes exteriorizações em geoglifos (que já deveriam estar classificados como geomonumentos do Parque), acresce que circundam, parecendo guardar, uma paisagem já por si também diferenciada, por ser a maior zona de planície cultivada dos Açores. Não obstante a espectacularidade do conjunto, é com um silêncio indiferente que se manifesta a resposta!
Em minha opinião, ignorar factos desta natureza e conservar a legitimidade perante o eleitorado é um outro tipo de “mistério” que aguarda explicação.
Antonieta Costa, 30/07/2015
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