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A verdade

Segunda, 10 de Agosto de 2015 692 visualizações Partilhar

Desassossego e inquietação é o que qualquer pessoa sente quando se vê perante uma realidade deturpada, envolta em mentira. A exigência da verdade é uma tendência natural que não só aproxima o homem do mundo de um modo mais autêntico como lhe permite um maior sucesso no confronto com as situações/problemas que se lhe apresentam. Mas infelizmente, o caminho da verdade não é o mais comum para muita gente. Em parte, preferir a mentira deve-se ao facto de que lidar com a realidade de modo enganoso pode até transformar-se numa via para o sucesso, que embora eticamente inadequado, porque corrupto ou baseado numa perversão da verdade, pode, no entanto ser mais lucrativo, em termos pessoais. Neste processo, constata-se mesmo que o que inicialmente poderia parecer fictício (isento de verdade) cedo se afirma como “real” ou verdadeiro, na opinião do senso comum. A ilusão é tal que impede o grupo, a breve trecho, de discriminar entre verdade e mentira.

As mistificações da verdade (quase sempre em proveito próprio) acontecem em todos os campos, mas as que dizem respeito à ciência são ainda mais graves por sabotarem as próprias bases do conhecimento, tidas como um dos privilégios do progresso da humanidade. Em Portugal, a Fundação para a Ciência e Tecnologia acaba de emitir e enviar aos investigadores um documento revendo em pormenor as premissas do Código de Conduta Responsável, segundo o qual “… o objetivo deve estar na procura da verdade, usando os melhores métodos científicos e éticos com alto impacto na sociedade.” Considerando que a época actual é de viragem no entendimento entre ética e investigação, propõe um exercício de reflexão sobre “… propostas que, sem serem científicas, imprimem matizes importantes no ritmo do desenvolvimento científico.” Mas a focagem principal parece situar-se na destrinça entre a procura da verdade na academia onde ela (verdade) muitas vezes pertence a paradigmas do passado que já se posicionam longe dela, e a ética de aceitar essa desactualização. Nestes casos, é aconselhado “… o confluir entre as abordagens das duas áreas, a científica e a ética, num estímulo à reflexão e à procura de soluções que potenciam não só o progresso científico, mas também o progresso moral.” O facto de ser imenso (por vezes) o distanciamento entre a “verdade científica” e a “realidade” leva a posições radicais e a um regredir na aquisição de conhecimento, para além de compelir ao embuste e à burla. “A fraude científica é uma representação deliberadamente falsa da verdade e é diferente da “má” ciência devida a erros metodológicos ou de outra natureza, interpretação errada de dados, erro na prova, negligência ou comportamento eticamente censurável. Estes dois aspetos podem ferir o conceito de integridade e merecem uma avaliação tão rigorosa como os mais graves - falsificação, fabricação e plágio.”

Instituições como a Fundação para a Ciência e Tecnologia têm razão em se preocuparem com comportamentos deste tipo, que estão a tornar-se comuns na actualidade, mas cabe à sociedade no seu todo não se eximir a essa preocupação, dado o valor que ocupa a busca da verdade, no quadro do seu património imaterial.

 

Colunista:

Antonieta Costa